16/07/2026, 9:37 h
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Destaque Editorial Álvaro Neto
EDITORIAL
Por Álvaro Neto (Diretor da Gazeta de Paços de Ferreira)
O seu percurso é extraordinário. Nascido numa família humilde da Madeira, alcançou o topo do futebol mundial graças a um talento ímpar, a uma disciplina quase sobre-humana e a uma capacidade de trabalho que poucos conseguiram igualar. A sua história merece reconhecimento. Seria absurdo negá-lo.
Mas é precisamente por ser uma exceção que o seu exemplo não pode ser transformado numa regra. E, no entanto, é isso que frequentemente acontece. Ronaldo converteu-se no rosto perfeito da narrativa meritocrática que o pensamento neoliberal tanto aprecia: quem trabalha, quem acredita e quem nunca desiste triunfa inevitavelmente. O sucesso passa, assim, a ser apresentado como uma consequência exclusiva do esforço individual, remetendo para segundo plano tudo aquilo que condiciona a vida das pessoas: a origem social, a qualidade da educação, as oportunidades, os contactos, a estabilidade económica ou, simplesmente, a sorte.
Esta visão é sedutora porque simplifica a realidade. Se o sucesso depende apenas da vontade, então o fracasso será sempre responsabilidade de quem não se esforçou o suficiente. É uma conclusão confortável para quem venceu, mas profundamente injusta para a esmagadora maioria daqueles que, apesar do trabalho, da competência e da dedicação, nunca encontrarão as mesmas oportunidades.
Também no plano desportivo, os últimos anos da carreira de Cristiano Ronaldo ilustram, de certo modo, os limites dessa lógica individualista. A legítima ambição de continuar a bater recordes e a ocupar o centro do palco parece, por vezes, sobrepor-se às necessidades do coletivo. Nenhum jogador, por mais brilhante que tenha sido, deve tornar-se maior do que a equipa que representa.
Cristiano Ronaldo continuará a ocupar um lugar cimeiro na história do futebol. O seu legado desportivo permanecerá intocável.
Cristiano Ronaldo é um fenómeno irrepetível. O problema começa quando uma exceção extraordinária é apresentada como argumento para negar as desigualdades que continuam a marcar a vida da maioria.
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