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Gazeta Paços de Ferreira

16/12/2023, 0:00 h

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Há nos frios da América do Norte um Portugal diferente deste plantado no velho continente

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A convite do jornal LusoPresse e do programa LusaQ TV, estive presente na “Conferência - A Comunidade Portuguesa do Quebec - Uma Visão do Passado, Presente e Futuro”, levada a efeito na Casa dos Açores do Quebec, onde fui recebido com enorme simpatia e fraternidade. Foram dias de trabalho intenso e, por entre intervenções de grande valia, tive a oportunidade de partilhar a minha opinião sobre o estado atual da literatura açoriana, valendo-me, para tal, de duas grandes obras recentemente publicadas: Os Velhos, de Paula de Sousa Lima, e A Escrava Açoriana, de Pedro Almeida Maia.

Por Telmo Nunes (Colunista)

CULTURA

 

 

Há nos frios da América do Norte um Portugal diferente deste plantado no velho continente, há quase novecentos anos. Um Portugal mais pequeno, é certo, mas muito solidário e extremamente caloroso. Ali recebe-se de braços bem abertos e envolve-se quem chega num abraço fraterno. Deparei-me com portugueses que sentem ainda um enorme orgulho dos seus símbolos mais representativos, a língua, em particular, e que estão longe de se aterem exclusivamente à mostra de uma etnografia que, sendo importante, não se assume como único interesse destas pessoas. Senti um Portugal capaz, atento à vida que flui tanto do lado de lá, como deste lado do Atlântico. Encontrei uma comunidade que se organiza, que se quer assumir participativa e se encontra munida de massa crítica bem acentuada, o que sedimenta a participação cívica e organizacional. Falo de portugueses capazes e com ideias alternativas, revestidas pela modernidade que emerge da sã convivência com o mundo mais desenvolvido, o que redunda num substancial alargamento de mundividência, que convém registar. Confesso que foi nesta viagem que compreendi, em definitivo, a importância de o Governo Regional dos Açores manter, ao longo dos anos, uma Direção Regional das Comunidades no seu organigrama. Deparei-me com gente focada no futuro, sem, todavia, esquecer as raízes e o trajeto que a trouxe até aos dias de hoje. Conheci na província do Quebec – Canadá –, um Portugal diferente deste onde cada vez mais vivemos isolados, entregues, quase em exclusivo, ao vazio das relações virtuais, a que as redes sociais nos votam. Ali, vi muitas pessoas alinhadas em organizações identitárias, que lutam em conjunto pelo bem comum e que têm por móbil único a ajuda ao próximo. Recordei, com saudade, aquela postura altruísta, de sentido comunitário que vivi apenas durante a lonjura da minha infância, e que era mantida por amigos e vizinhos da minha casa, na rua da Bela Rosa, ao longo das últimas duas décadas do século passado.

 

 

Confesso que foi uma verdadeira descoberta estar entre estas pessoas que, com o seu caloroso acolhimento, nos fazem esquecer do frio canadiano: açorianos orgulhosos, de enorme sentido telúrico e que carregam constantemente o arquipélago no coração. Com estes novos amigos, integrei uma percepção muito mais profunda e clarividente da expressão que garante que conhecemos melhor o “ser-se açoriano” assim que chegamos à diáspora, ideia, aliás, veiculada pela própria Natália Correia, no seu livro “Descobri que era europeia”.

 

 

 

 

Conheci pessoas muito interessantes, oriundas de diversos países do mundo, mas todas com pontos de vista reveladores e opiniões bastante diferenciadas, todas empenhadas em calcorrear um caminho que se pensa ser promissor, sem nunca olvidar o sítio de onde viemos.

 

 

A convite do jornal LusoPresse e do programa LusaQ TV, estive presente na “Conferência - A Comunidade Portuguesa do Quebec - Uma Visão do Passado, Presente e Futuro”, levada a efeito na Casa dos Açores do Quebec, onde fui recebido com enorme simpatia e fraternidade. Foram dias de trabalho intenso e, por entre intervenções de grande valia, tive a oportunidade de partilhar a minha opinião sobre o estado atual da literatura açoriana, valendo-me, para tal, de duas grandes obras recentemente publicadas: Os Velhos, de Paula de Sousa Lima, e A Escrava Açoriana, de Pedro Almeida Maia.

 

 

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A conferência esteve muito bem organizada; os temas desenvolvidos, para além de ecléticos, revestiram-se de atualidade e pertinência assinaláveis, tendo havido espaço para a discussão e partilha de reflexões.

 

 

Houve o painel dedicado à Emigração/Imigração, onde se sublinharam os problemas de sucessão geracional entre os emigrantes portugueses naquela comunidade, lamentando-se o afastamento dos mais jovens, que, compreensivelmente, vão talhando os seus percursos sujeitos cada vez mais a um processo de natural aculturação. Houve, no entanto, quem apontasse possíveis soluções para contrariar esta realidade, em especial as geminações entre cidades e comunidades. No painel dedicado à mulher, foi possível traçar o perfil da mulher emigrante de há setenta anos, em contraponto com o paradigma a que agora se assiste, salientando-se as profundas alterações entre um tempo e outro, havendo mesmo quem se congratulasse com a diminuição significativa das desigualdades de género. Houve espaço para os mais jovens se pronunciarem e, em boa verdade, fizeram-no de forma muito comprometida, deslumbrando os presentes e deixando no ar uma esperança no futuro. Falou-se de comunidade e da sua representatividade e importância local, regional e até nacional, e ao serviço dela, discutiu-se de forma muito participada os meios de comunicação social, concluindo-se que, embora indispensáveis, há que pensar o futuro e nos desafios que este trará. A terminar houve espaço dedicado à literatura, artes plásticas e de cena, onde diferentes intervenientes se debruçaram sobre ramos distintos da cultura, mas onde todos concordaram com o papel basilar que esta terá de assumir em qualquer comunidade.

 

 

 

 

Paralelamente aos trabalhos, houve tempo para homenagear aqueles que se destacaram nas suas áreas profissionais, ao longo do último ano, mantendo desempenhos de excelência e em prol do desenvolvimento da própria comunidade portuguesa e açoriana do Quebec.

 

 

Falo-vos de uma experiência muito enriquecedora, espelhada em sinergias de qualidade reconhecida, e que possibilitou o contacto com pessoas excecionais, profissionais de excelência de um e de outro lado do Atlântico.

 

 

A terminar, deixo um especial agradecimento a Norberto Aguiar, alma do jornal LusoPresse e do programa LusaQ TV, o grande impulsionador desta conferência, por todo o seu labor e esforços para que tudo pudesse terminar no sucesso que se almejava.

 

 

 

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