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Gazeta Paços de Ferreira

24/02/2026, 0:00 h

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“Exterminem todas as bestas”

Cultura Opinião Abílio Travessas

CULTURA

De repente esta frase que Joseph Conrad atribui a Kurtz no final do seu relatório, aparece com toda a brutalidade, marca nunca esquecida da missão civilizadora ocidental.

Por Abílio Travessas (Colunista e Professor aposentado)

 

É título do livro Coração das Trevas lido há anos e que agora recupero para testemunhar tempos de assassinos. Bestas, terroristas, “condenados da terra” (Franz Fannon); é preciso exterminar todas estas bestas, palestinianos na ordem do dia, Guterres a acusar os sionistas de extrema direita do governo israelita, de limpeza étnica em Gaza. Por onde anda a cristianíssima civilização ocidental, as democracias hipócritas europeias, como lhes chamou psiquiatra palestino?

 

Mia Couto, no último livro, fala do massacre do exército alemão sobre populações de Moçambique, na primeira guerra mundial. Acrescem, nas colónias portuguesas, os massacres de Batepá, S. Tomé, 1953; Agosto de 1959, Pindjiguti, Bissau; Junho de 1960, Mueda, Moçambique; Wiriamu, Moçambique.

 

A lista é interminável: Indochina – guerra contra os franceses após a 2ª guerra mundial; Vietname - contra os americanos,  apoiantes dos regimes fantoches de Diem e Thieu, originam centenas de milhares de mortos; 1971, massacre de 500 camponeses vietnamitas em My Lai. Em Dezembro de 1968 os americanos tinham 580 000 homens no terreno, mais 64 000 aliados australianos, coreanos e  tailandeses, e perderam a guerra contra um país do 3º mundo, como já os franceses a tinham perdido na batalha final de Dien Bien Phu, primeira guerra da Indochina.

 

 

 

 

Os chamados Índios das Américas foram vítimas de genocídio nas Antilhas, México, América do Sul, Brasil e América do Norte, pelos Espanhóis, Portugueses e Anglo-saxónicos; Bartholomé de Las Casas, missionário espanhol, dá relato em Brevissima relacion de la destrucion de las Indias: “Os Índios estavam em paz com os cristãos, mas estes invadiram esses países como lobos enraivecidos que se lançam sobre pacíficos e mansos carneiros. E, como todos esses homens que vieram de Castela eram pessoas pouco preocupadas com a sua alma, sedentos de riquezas e possessos das mais vis paixões, empenharam-se de tal modo em destruir esses países que nenhuma pena, nem mesmo nenhuma língua bastariam para relatar isso; tanto e tão bem que a população calculada à partida em um milhão e cem mil almas está inteiramente dissipada e destruída.”

 

A extensão do genocídio dos Índios da América do Norte é de difícil  cálculo, para além do roubo das terras pertença dos autóctones; culturas ancestrais dos povos ameríndios foram destruídas por homens tão civilizados e tão tementes a Deus… “… os americanos não podem dizer que são o Novo Mundo e que nada têm a ver com o genocídio perpetrado na Europa: eles apagaram cem milhões de indígenas em 90 anos; e mais de 40 milhões de escravos negros É esse o preço de ser americano. E fala-se da construção da América como o sonho mais puro dos pioneiros. A América começou com uma mentira”- Raoul Peck – Ipsilon – Público, Janeiro de 2026.

 

Importante é guardar este Ipsilon. Da análise  de Vasco Câmara sobre o documentário Orwell: 2+2=5 de Raoul Peck à entrevista com o autor – “Cresci em muitos países, no Haiti, no Congo, nos EUA, na Alemanha e em França, sei o que está a acontecer. Sei como os franceses pensam, sei como os americanos pensam. E sei como o Terceiro Mundo pensa, as batalhas que ali se travam e conheço essa espécie de olhar de superioridade  sobre essa parte do mundo, afinal dois terços do planeta, enquanto é explorada. Tudo o que lá existe está na mirada do mundo. Cresci com isso. Isto está sempre no meu pensamento. Como poderia manter-me em silêncio? Seria cúmplice.” E nós somos cúmplices…

 

 

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