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Gazeta Paços de Ferreira

19/11/2024, 20:08 h

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ESCUTA, ZÉ ALHEADO!

Opinião CRISTIANO RIBEIRO

OPINIÃO

A escola, o saber, a cultura, são coisas de intelectuais. Deram-te uma televisão, a mesa do jogo e o balcão do café, a possibilidade de votar, e por aí ficaste.


Parafraseio o título famoso de ensaio do psicanalista austríaco Wilhelm Reich (1897-1957), que em 1945 traduzia um seu pensamento atribulado e inconformado sobre psicologia de massas, a sociedade e a sexualidade.

O título era: “Escuta, Zé Ninguém!”. Então assim era.

O meu Zé Alheado é o homem comum de 2024, com os seus problemas, as suas realizações, as suas alienações. O Zé está presente na vida diária e também nas representações dos espaços mediáticos. É glorificado ocasionalmente pelos homens de Estado como o “povo”, o “homem comum”, a “nação valente”, o “bom cidadão”, mas verdadeiramente não passa de um seu instrumento ou circunstância “útil”.
 
Pois é! Zé, mais uma vez a morte esteve presente. Onze pessoas morreram sem resposta a apelos a assistências médicas de urgência.
Os (ir)responsáveis não se preocuparam com uma greve dos agentes de emergência médica hospitalar, talvez por grave insensibilidade, mas certamente por incapacidade em pensar corretamente.
Mas diz-me Zé: já foste verdadeiramente exigente para com eles? Já lhes pediste explicações? 
Não… E por isso então não te queixas?
 

 
O que tu queres é uma bola no relvado, uma musiquinha em playback, e uma cerveja fresquinha na garganta, o cigarro na boca…ou uma fofoca sobre a vizinha…e já agora, dizer mal dos políticos, que são todos iguais, dizes tu.
 
Estás-te a “borrifar” para o INEM, para os partos nas ambulâncias, para a falta de professores dos teus filhos, para os velhos acumulados nas urgências, para o lixo nas ruas, para a atividade dos autarcas, ou dos activistas sociais… “Eles”, e só eles, que tratem disso. O que tu queres é o aumentozito no subsídio, na pensão…
 
A morte, Zé, já não te incomoda muito. Ou não passasses já de um vivo-morto ou melhor, de um morto-vivo. És uma caricatura. Uma vida toda, por vezes curta, para só saberes aquilo que te permite sobreviver (e mal). A escola, o saber, a cultura, são coisas de intelectuais. Deram-te uma televisão, a mesa do jogo e o balcão do café, a possibilidade de votar, e por aí ficaste.
 
Contentinho, e no cantinho. Com um pensamento com três ou quatro ideias, o discurso pessimista, mas seguro.
 
Mas não penses que és único, o alheado nacional. Há também o alheado na estranja. Agora mesmo em Valência, os hermanos espanhóis só se indignaram após as mortes.
 
É uma doença, uma pandemia. O conformismo, a inércia, o calculismo, o individualismo cultivado. Não pensar que o pensar é perigoso.
 
A morte como final de linha. E nisso, Zé, tens razão. E por uma única vez.

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