Por
Gazeta Paços de Ferreira

03/10/2021, 0:00 h

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Croniquetas em tempo de lamber feridas 19. Orquestra afinada

Cultura

Mal me passaram, bem cedo, para o quarto com o cavalheiro da minha idade, já há uma semana internado, a minha preocupação passou a ser restabelecer imediatamente o contacto com o exterior.

Consegui arranjar um carregador e conectei-me com o ciberespaço. Liguei logo ao meu médico-assistente que, a rir com gosto, disse-me logo:

– Bom, vejo que conseguiste o carregador. Voilà!

E à minha pergunta ansiosa, respondeu-me:

– Sim, sei exatamente onde estás e como estás!

Um alívio de todo o tamanho. Tinha apostado tudo nele para contactos com o exterior, e dera certo.

A partir daí, a rotina diária do internamento na unidade simples do Covid (havia mais duas, uma intermédia e uma intensiva): exames, medicamentos, comer, dormir, ser paciente, sem história.

Mais uma vez dei comigo a apreciar a intensa logística para manter aquele espaço, fechado a sete chaves para o bicho dali não escapar, tudo mantido com equipas multidisciplinares muito jovens, e eu a pensar:

– A calma destes jovens, cientes de que é deles que depende a vitória final desta guerra! O rigor, o profissionalismo, a abnegação, o empenho! Ainda há um ano encaravam o inimigo com receio, agora a gente percebe que eles SABEM que vão vencer. Eles. Mais ninguém.

Nesta multidisciplinariedade, eu tinha de os envolver a todos, começando nos médicos, enfermeiros e assistentes técnicos, acabando no pessoal dos transportes, da alimentação, da limpeza, do asseio dos doentes… tudo ali articulado que nem uma orquestra. Fiquei varado quando, de dois em dois dias, me entram quarto adentro dois mocetões com uma pequena unidade móvel autónoma, da qual sacam um dispositivo quadrado rijo, mo encostam às costas e tiram-me, comigo na cama, uma radiografia aos pulmões!!! Com esta é que eu não esperava!

Ocorreu-me a mesma dúvida de quando assisto a um concerto sinfónico ao vivo e me interrogo sobre a valia da mais insignificante componente da orquestra:

– Aquele contrabaixo faz mesmo falta ali? E aquele oboé? Ah, vejam, e aquele fagote! Será? tudo faz falta e de todos depende a harmonia e a beleza sincronizada das partes.

É claro que notei que ainda há arestas a desbastar, mas…. meus amigos, com muita sinceridade, o essencial tinha sido bem aprendido e estava lá! Que orgulho, Deus meu! Esta malta da saúde sabe o que faz e vai vencer!

Façamos nós a nossa parte!

Eduardo Ribeiro, Jurista Aposentado


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