01/06/2026, 14:33 h
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Ao contrário do que acontecia num país rural de há 50 anos, sem reformas, em que os filhos eram as apostas para uma garantia de velhice acima da indigência, nos tempos atuais um filho é um projecto ambicioso, que vai exigir muitos recursos, incompatíveis com uma sociedade em que a repartição da riqueza está cada vez mais desequilibrada.
Em Portugal a diminuição da taxa de natalidade será o resultado de vários fatores, alguns complexos; apesar disso parece inegável que pouca gente decide ter filhos se:
-a possibilidade de arranjar habitação está quase totalmente entregue aos mercados e à especulação, e as distancias e tempos de acesso ao local de trabalho não cessam de crescer, deixando pouco tempo para ao filhos;
-o emprego estável está constantemente ameaçado por políticas de precariedade, que os governos cinicamente chamam de flexibilidade;
-apesar do aumento de produtividade, o stress laboral não diminuiu, e em muitos casos tem piorado.
É preciso apostar mais nas pessoas e menos nos negócios, e na miragem impossível do crescimento infinito; repartir decentemente a riqueza produzida é um projeto incompatível com governos que se esquecem, que sem crianças não há futuro.
José Cavalheiro
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