26/04/2026, 0:00 h
9
OPINIÃO POLÍTICA
Por Carlos Dias (Licenciado em Ciências Sociais e Politicas e Pós graduado em Gestão Autárquica e Modernização)
Entre 2013 e 2026, sucederam-se quatro mandatos socialistas. Quatro oportunidades para cumprir uma promessa, que não era apenas eleitoral, mas simbólica. Humberto Brito e, posteriormente, Paulo Ferreira herdaram e reafirmaram esse compromisso, amplamente apoiado por movimentos cívicos como o M6N, que então mobilizava cidadãos em torno da gestão pública da água. Hoje, porém, esse movimento encontra-se praticamente moribundo, e não por falta de razão, mas por excesso de desilusão.
A municipalização da água não era uma utopia. Nunca foi. Bem ao lado, no concelho de Paredes, esse caminho foi percorrido. Com decisões políticas firmes e vontade estratégica, o município conseguiu trazer a gestão da água para o domínio público, demonstrando que, quando há determinação, os obstáculos tornam-se ultrapassáveis. A comparação é inevitável, e desconfortável.
Em Paços de Ferreira, a promessa transformou-se num silêncio prolongado. O argumento da impossibilidade, tantas vezes insinuado, não resiste ao teste da realidade. O que faltou não foi viabilidade técnica ou legal, mas vontade política consistente.
Mais grave ainda, não só a promessa não foi cumprida, como o caminho seguido acabou por agravar a situação. A decisão de prolongar e reforçar o contrato existente veio comprometer ainda mais o futuro, criando impactos diretos na fatura dos munícipes. Em vez de aproximar a gestão da água dos cidadãos e aliviar custos, consolidou-se um modelo que perpetua encargos elevados e reduz a margem de intervenção pública.

E isso tem custos, tarifas que permanecem elevadas, uma gestão distante dos cidadãos e a sensação de que uma oportunidade histórica foi desperdiçada.
Mais do que uma falha administrativa, trata-se de uma quebra de confiança. A grande bandeira, que ajudou a derrubar décadas de governação social-democrata acabou por se revelar frágil, ou pior, ilusória. Quando uma promessa estruturante não é cumprida, ao longo de quatro mandatos consecutivos, deixa de ser adiamento e passa a ser opção.
A política local vive de proximidade e de credibilidade. E é precisamente aqui que o atual executivo falha. Não basta herdar causas, é preciso concretizá-las. Não basta invocar dificuldades, é preciso enfrentá-las. E, acima de tudo, não basta vencer eleições é preciso honrar compromissos.
Paços de Ferreira merece mais do que promessas adiadas. Merece transparência, coragem e, sobretudo, coerência. Porque, quando a água, esse bem comum essencial, continua fora do controlo público, o que está em causa não é apenas gestão, é confiança.
ASSINE A GAZETA DE PAÇOS DE FERREIRA
Opinião
26/04/2026
Opinião
26/04/2026
Opinião
26/04/2026
Opinião
26/04/2026