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Gazeta Paços de Ferreira

18/01/2026, 0:00 h

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A PIDE PELO OLHAR DE CASTANHEIRA

Cultura Opinião

CULTURA

Histórias da PIDE Quando Salazar Mandava é o mais recente livro de José Pedro Castanheira, o mesmo autor, entre outros, de Os Últimos do Estado Novo (Tinta da China, 2023) ou Volta Aos Açores Em Quinze Dias (Tinta da China, 2022).

Por Telmo R. Nunes (Colunista)

 

Neste volume, o jornalista do Expresso, agora aposentado, reúne seis das inúmeras reportagens que produziu sobre a PIDE/DGS, ao longo da sua riquíssima carreira jornalística. São histórias que contextualizam informação que, muitas vezes, nos chega dispersa e avulsa e, por isso, são de leitura muito recomendada. Ademais, é um texto extremamente interessante, com um valor histórico enorme e que resgata do esquecimento episódios absolutamente incríveis, alguns dignos de guião cinematográfico!

 

Pese embora a coesão textual que perpassa as seis narrativas que compõem este volume, assim como a constância da qualidade de escrita a que já nos habituou o autor, não quero deixar de destacar as reportagens sobre a vergonhosa detenção e consequente prisão de Calouste Gulbenkian, o homem mais rico do mundo, durante o seu refúgio em Portugal, por agentes da então chamada PVDE, (designação antecessora de PIDE), decorria o ano de 1942. Um episódio que envergonhou o país a nível internacional e, por isso, ocultado de quase todos os registos de então.

 

A segunda reportagem que me merece especial destaque refere-se à postura e conduta do Presidente Craveiro Lopes ante os poderes instalados. Foi uma descoberta interessante e, sobretudo, um acentuar da impressão que já tinha de Salazar e das suas políticas.

 

Por último, a minha predileta, a reportagem sobre a atuação do ex inspetor da PIDE Rosa Casaco, o seu envolvimento na morte do General Humberto Delgado e a forma como José Pedro Castanheira, um jornalista, conseguiu contactar o ex operacional da PIDE, agendar um encontro e entrevistar um homem que, há vinte e quatro anos, era procurado pela Interpol. A reportagem saiu no Expresso em duas edições consecutivas e o impacto que teve foi de tal forma estrondoso, que todos acusaram as diferentes polícias de incompetência e lassidão. Os ecos deste trabalho notável do jornalista do Expresso fizeram com que as autoridades reforçassem o seu empenho, o que redundou na captura de Casaco, dois meses depois da publicação da primeira parte da reportagem.

 

Para além destas, há ainda a dramática história de D. Eurico Dias Nogueira, Bispo no Niassa, em Moçambique, constantemente vigiado pela PIDE, a história do Crime de Belas, perpetrado por nomes grados da cultura portuguesa e ainda a reportagem da inesperada e não menos arrojada visita de Ievtuchenku, um poeta russo, que se deslocou a Portugal em 1967, a convite de Snu Abacassis, a sua editora em Portugal, e responsável pela Dom Quixote.

 

A boa notícia é que este é o volume um, pelo que tudo indica que, em breve, teremos um novo conjunto de narrativas tão peculiares como as que agora reveem a luz dos escaparates, reunidas num segundo volume.

 

Está de parabéns o autor por mais este excelente trabalho, que vem confirmar que o jornalismo sério, empenhado e livre ainda faz a diferença, mesmo à distância de mais de meio século dos factos narrados.

 


José Pedro Castanheira, Histórias da PIDE Quando Salazar Mandava, Tinta da China, 2025.

 

 

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