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Gazeta Paços de Ferreira

16/01/2024, 0:00 h

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A Montanha Cobriu-se de Lava e Outras Estórias

Cultura Literatura

CULTURA

A riqueza desta obra não se esgota no que fica dito, passando também pelo detalhe e subtileza com que o autor se muniu para caracterizar o povo português e açoriano, em particular. Assuntos triviais da vida quotidiana e outros de maior relevo histórico são tratados com delicadeza e aparente simplicidade, o que, já sabemos, é de dificílima execução.

Por Telmo Nunes (Colunista)

LITERATURA

 

 

O professor Carlos Fagundes, florentino de nascença, apaixonado pela ilha do Pico e desde há muito radicado em Paredes, concelho nortenho de Portugal Continental, lançou recentemente o seu segundo livro, intitulado A Montanha Cobriu-se de Lava e Outras Estórias, um conjunto de narrativas que têm o Pico como chão da sua ação. É inegável a riqueza do trabalho que o autor tem vindo a desenvolver no âmbito cultural, antropológico e até de índole histórico, direcionando-nos o olhar e a atenção para factos, vivências ou eventos de crucial importância, mas que, por algum motivo, tombaram na escuridão do esquecimento. Se com Entre o Mar e a Rocha – o seu primeiro livro – o tinha conseguido, a verdade é que não desapontou e nesta segunda incursão pela narrativa curta conseguiu manter a divícia da sua prosa, a fineza vocabular, a vivacidade narrativa e o interesse geral, captando a atenção do leitor desde a primeira à última estória narradas.

 

 

Como acontecera com o seu antecessor, neste volume, o autor dá a conhecer uns Açores substancialmente diferentes dos que hoje se assumem como expoente turístico nacional e europeu. Em cada estória é aberta uma janela para um passado não muito distante – décadas 60 e 70 do Século XX –, mas, felizmente para todos, consideravelmente diferente da realidade em que hoje vivemos. Sem que com isso se procure quaisquer alusões políticas, será caso para sublinhar o tanto que evoluímos em tão pouco tempo.

 

 

 

 

O título que empresta nome ao livro é o mesmo da narrativa de abertura, e recupera a crise sismovulcânica ocorrida no Pico, no início do Século XVIII, assim como a peste bubónica que afetou o Faial pela mesma altura. Uma vez mais, o autor parte de uma forte componente histórica para desenvolver as suas narrativas, intercalando eventos factuais com a necessária componente ficcional, criando, dessa forma, um ambiente de verosimilhança que, entre outros, capta a atenção do leitor.

 

 

Como foi já apontado por outros leitores, há no livro uma narrativa que se destaca das demais, não apenas por extravasar o universo picoense mas, sobretudo, por se assumir com premissas e qualidade suficientes para algo de maior monta: a viagem de um petiz a bordo do vetusto Carvalho Araújo, desde a ilha das Flores até São Miguel, onde viria a prosseguir estudos, ingressando no Seminário Menor de Santo Cristo. Esta narrativa nasce da memória do próprio autor, que realizou esta mesma viagem e a descreve com admirável minúcia, oferecendo-nos um relato tão preciso e impressionante que ninguém ousaria afirmar tratar-se de uma memória com mais de cinquenta anos. Nessa medida, seria muito conveniente eternizar este período tão interessante numa outra obra, eventualmente um romance ou mesmo um livro de memórias.

 

 

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Permitindo-nos uma pequena deriva, tem sido muito interessante verificar em conversas ou em leituras diversas, a forma como diferentes autores açorianos (Professor Carlos Fagundes incluído) se referem ao Carvalho Araújo e às suas viagens. Descrevem-nas sempre como muito difíceis, salientando, particularmente, o tempo despendido em cada viagem, assim como as recorrentes dificuldades gástricas, mas fazem-no sempre com muito enlevo, detalhe e até com um notório resquício de saudade. Tenhamos presente a importância que o velho paquete trazia à vida das pessoas e à economia açoriana e madeirense, em geral, justificando-se, talvez por isso, um certo romantismo em torno destas travessias atlânticas, fossem abordo desta ou de outras embarcações da Empresa Insulana de Navegação.

 

 

A riqueza desta obra não se esgota no que fica dito, passando também pelo detalhe e subtileza com que o autor se muniu para caracterizar o povo português e açoriano, em particular. Assuntos triviais da vida quotidiana e outros de maior relevo histórico são tratados com delicadeza e aparente simplicidade, o que, já sabemos, é de dificílima execução. Por entre estas páginas há muito daquilo que nos faz portugueses açorianos, desde logo a capacidade de reação perante as adversidades resultantes das diferentes calamidades naturais que recorrentemente nos assolam, assim como o humanismo e a generosidade daqueles que, mesmo de parcos recursos, não hesitam no momento de disponibilizar o pouco de que dispõem ante miséria do vizinho, ou mesmo do desconhecido. Outra das características transversais a muitos destes textos é o recurso ao sentido de humor, mesmo naquelas situações que se revestem de risco e perigosidade.

 

 

Como escreveu Manuel Serpa no interessante prefácio que abre a obra, “É sempre com redobrada expetativa que acolhemos as novas iniciativas literárias do Carlos Fagundes”, que tem trilhado um percurso em crescendo, pautado pelo brilho da qualidade literária e revestido de um enorme interesse sociocultural. É muito importante que haja quem se disponha a eternizar modos de vida, usos e costumes idos que, de outra forma, cairiam miseravelmente no olvido, perdendo-se, assim, muito daquilo do que fomos e do que está na génese do que hoje somos. Quando encontramos quem o faça, com a vantagem de o fazer com mestria literária, cabe-nos, naturalmente, agradecer e, com ânsia assumida, esperar pela obra que se seguirá.

 

 

Carlos Fagundes, A Montanha Cobriu-se de Lava e Outras Estórias, Letras Lavadas Edições, 2023

 

 

 

 

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