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Gazeta Paços de Ferreira

28/06/2026, 0:00 h

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Quando o Papa fala mais à esquerda do que a direita gostaria

Opinião Partido Socialista Religião

OS NOSSOS NO PARLAMENTO

Na encíclica Magnifica Humanitas, o Papa recorda que uma sociedade se mede pela forma como trata os mais vulneráveis. Uma mensagem moral que interpela diretamente as escolhas políticas do nosso tempo.

Por Humberto Brito (Deputado à Assembleia da República pelo Partido Socialista)

 

O Papa Leão XIV, na encíclica Magnifica Humanitas, recordou ao mundo uma verdade simples: uma sociedade que abandona os mais vulneráveis — os pobres, os doentes, os idosos, os imigrantes — não é uma sociedade justa. Não basta crescer. Não basta produzir riqueza. A forma como tratamos quem precisa diz tudo sobre quem somos.

 

Não é a primeira vez que um Papa com este nome desafia o seu tempo. Há mais de um século, Leão XIII publicou a encíclica Rerum Novarum e afirmou algo que então incomodou muitos: os trabalhadores têm direitos, o salário justo é uma obrigação moral e o Estado tem o dever de proteger quem não consegue proteger-se sozinho. Foi assim que nasceu a doutrina social da Igreja. E, pelos vistos, continua a incomodar.

 

Porque há uma verdade que muitos preferem não dizer: quando os serviços públicos enfraquecem, os interesses privados ganham espaço. Um SNS mais fraco significa mais dependência de quem pode pagar. Quando as listas de espera aumentam, quando faltam profissionais de saúde, quando as cirurgias são adiadas e os cidadãos desesperam por uma consulta, alguém vê um problema. Outros vêem uma oportunidade de negócio.

 

O exemplo está à vista. No Tâmega e Sousa, mais de 520 mil pessoas dependem do hospital de Penafiel. Faltam profissionais, faltam camas e acumulam-se dificuldades. Não estamos apenas perante falhas de gestão. Estamos perante consequências de opções políticas que estão a fragilizar a capacidade de resposta do serviço público.

 

E é precisamente aqui que a mensagem do Papa ganha atualidade. Leão XIV não fala para partidos. Fala para todos. Para quem trabalha, para quem paga impostos, para quem acredita que o esforço de uma vida deve ser recompensado com dignidade e segurança. Fala para os que votam à esquerda e para os que votam à direita.

 

 

 

 

Há muitos portugueses que votam em partidos de direita e da extrema direita e que, apesar disso, dependem do SNS, da escola pública e da proteção social. Há famílias que não conseguem comprar casa. Há idosos que esperam meses por uma consulta. Há jovens que continuam a emigrar porque não encontram oportunidades no seu país. Essas pessoas não precisam de discursos. Precisam de respostas.

 

O Papa não faz campanha por nenhum partido. Mas as suas palavras têm consequências políticas. Porque governar é escolher. Escolher entre proteger ou abandonar. Entre investir nos serviços públicos ou deixar que se degradem. Entre colocar a dignidade humana no centro das decisões ou submeter tudo à lógica do mercado.

 

Como socialista, revejo-me nesta mensagem. Porque acredito que a política existe para proteger quem mais precisa, para criar oportunidades para quem trabalha e para garantir que ninguém fica para trás por falta de recursos ou de influência.

 

Não é apenas uma questão de esquerda. É uma questão de justiça. E é também um desafio a todos nós: decidir que país queremos construir e de que lado queremos estar.

 

 

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