06/09/2026, 0:00 h
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OS NOSSOS NO PARLAMENTO
Por Humberto Brito (Deputado à Assembleia da República pelo Partido Socialista)
1. A economia real: quem arrisca, quem trabalha e quem fica pelo caminho
Em Paços de Ferreira sabemos distinguir quem cria riqueza de quem apenas encontra maneira de a capturar. Conhecemos o empresário que hipoteca a casa para montar uma fábrica, que compra uma máquina sem saber como estará o mercado daqui a dois anos, que numa sexta-feira difícil paga primeiro os salários, os impostos e só depois faz as suas contas. E conhecemos quem trabalha nessa fábrica, levanta-se cedo, produz, desconta e chega ao fim do mês preocupado com a prestação da casa e o dinheiro que não estica. Uns arriscam capital, outros entregam o seu trabalho - os dois criam riqueza, e uma economia saudável precisa de ambos. O problema começa quando surge um terceiro que pouco produz e pouco arrisca, mas fica sempre com uma parte crescente do valor criado pelos outros.
2. O debate das pensões: a “modernização do PSD” que nos atira para os fundos
Olho com preocupação para a discussão aberta pelo governo do PSD sobre a “refundação” do sistema de pensões, que admite reduzir contribuições para a Segurança Social em troca da sua aplicação em fundos de pensões ou Planos Poupança Reforma.
Podem embrulhar isto em linguagem de liberdade de escolha e modernização. Eu prefiro a pergunta que qualquer empresário faria perante um negócio: quem ganha com ele?
Se parte das contribuições de milhões de trabalhadores passar para produtos financeiros privados, cria-se um mercado gigantesco para bancos, seguradoras e fundos - e o dinheiro terá sempre de sair de algum lado. As pensões e reformas de quem trabalhou uma vida inteira não podem transformar-se na próxima oportunidade de negócio de quem procura uma nova renda. Há quatro séculos, o Padre António Vieira explicava que, para um peixe grande crescer, tinha de comer muitos peixes pequenos. Quatro séculos depois, a economia mudou, mas a matemática não: para transformar as poupanças de milhões de trabalhadores num grande negócio financeiro, são precisas as pequenas contribuições de todos.

3. O discurso do Chega: a facilidade de culpar os mais fracos para proteger os grandes grupos económicos
Também por isso não me seduz a política do Chega. O partido diz que combate o sistema, mas escolhe sempre os mesmos alvos: o imigrante, o pobre, quem recebe apoio, o funcionário público. Os grandes interesses económicos raramente sentem a mesma fúria - e não é indiferente que entre os financiadores do Chega estejam empresários com relevantes interesses económicos. Isto não prova troca de favores, mas justifica a pergunta: porque é um partido tão duro com os frágeis e tão contido perante os poderosos?
É mais fácil pôr os pequenos contra os pequenos do que pôr os pequenos a questionar os grandes. Prefiro uma política que exija responsabilidade a todos - a quem recebe, a quem trabalha, a quem governa e a quem tem poder económico - sem ódio e sem dividir a comunidade.
4. Conclusão: porque escolho o PS
Não sou contra o capital, o lucro ou o mercado - sou a favor de quem os arrisca para criar valor, e contra uma sociedade em que tudo se transforma em mercado.
Quero que o empresário que investe possa ganhar dinheiro e que o trabalhador que produz viva dignamente do seu salário. Quero que uma criança chegue tão longe quanto o seu talento, e que quem trabalhou quarenta anos não entregue a segurança da sua velhice à sorte dos mercados financeiros.
Se o PS tem defeitos, tem. Se cometeu erros, cometeu. Não há objectivamente partidos perfeitos. Mas sou do PS porque, entre todos, é quem ainda acredita que o Estado social não é um estorvo a desmontar, mas o que permite a um filho de operário chegar tão longe quanto o seu talento. É quem prefere corrigir o sistema a entregá-lo a quem só quer lucrar com ele. É por isso que sou do PS.
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