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Gazeta Paços de Ferreira

04/04/2026, 0:00 h

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O canudo não cura a pobreza de carácter

Opinião Celina Pereira

OPINIÃO

Há uma espécie de mania social, muito enraizada em certas elites de trazer-por-casa, que confunde o título académico com uma licença divina para a arrogância. Recentemente, fomos brindados com uma pérola de elitismo rasteiro que merece ser dissecada, não pela relevância de quem a escreveu, mas pelo que revela sobre o estado da nossa "doutice".

Por Celina Pereira

 

O argumento é de uma tacanhez gritante: alegadamente, alguém que exerce uma profissão técnica ou comercial não teria legitimidade para opinar sobre a legalidade da gestão pública. Pelos vistos, para este pensamento iluminado, o discernimento ético e o sentido crítico são exclusivos de quem ostenta um selo universitário no cartão de visita. É a velha tática de quem, não tendo argumentos para o debate, tenta desqualificar o adversário com base no seu extrato profissional.

 

É fascinante observar como este tipo de pseudo-doutores, que deveriam ser exemplos de retidão e elevação, dada a posição que ocupam, se prestam a um papel tão medíocre. Utilizam analogias absurdas, comparando a análise de funções públicas a cirurgias cardíacas, como se o direito e a ética fossem ciências ocultas inacessíveis aos "comuns mortais". Esquecem-se, na sua bolha de superioridade, que a integridade, o carácter e os valores não se compram na secretaria de uma faculdade.

 

 

 

 

A verdade é que existem muitos "doutores" que não chegam aos calcanhares de um trabalhador honesto que nunca pisou uma academia. O título pode dar o saber técnico, mas não ensina a ser gente. Ver alguém com responsabilidades públicas a discriminar cidadãos pelo seu ganha-pão é, no mínimo, degradante. É uma confissão de fraqueza intelectual.

 

Quem escreve tais barbaridades deveria sentir um profundo aperto de vergonha. Se o canudo serviu apenas para alimentar um complexo de superioridade e para segregar os "percebedores" (perdoem-me o neologismo) dos "ignorantes", então esse percurso académico foi um desperdício de papel. A democracia não é um clube privado para juristas; é o espaço onde qualquer cidadão, seja vendedor ou canalizador, tem o dever de escrutinar quem gere o que é de todos.

 

No final do dia, prefiro mil vezes a honestidade de quem trabalha com as mãos à arrogância estéril de quem usa o título como escudo para a sua própria falta de integridade. Até porque, no fundo, são esses trabalhadores que, com o seu esforço, permitem pagar os ordenados destes pseudo-doutores.

 

 

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