21/05/2026, 9:10 h
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Editorial Opinião Celina Pereira
EDITORIAL
Por Celina Pereira
Contudo, este avanço escancara um contrassenso gritante na nossa política social: onde estão as respostas para os nossos idosos? Parece haver uma miopia governativa que só vê a necessidade de "deixar os filhos" para ir trabalhar, esquecendo-se de que os nossos pais enfrentam uma vulnerabilidade idêntica.
A escassez de centros de dia no concelho é uma realidade gritante e dolorosa. Trabalhar com o coração nas mãos, sem saber se quem nos deu a vida está seguro em casa, tornou-se o quotidiano de muitos munícipes.
Os poucos centros de dia que resistem têm uma completa incompatibilidade de horários com os turnos das fábricas, e nem sempre as famílias têm retaguarda para os deixar prontos às horas a que os transportes os vão buscar ou entregar.
Para além disso, o atual modelo de funcionamento falha na medida em que parecem desenhados como meros centros de entretenimento para seniores autónomos, ignorando quem realmente tem limitações e precisa de cuidados de saúde e de assistência estruturada.
É urgente aplicar a mesma lógica das creches à terceira idade. Se um trabalhador pode deixar o seu filho cedo e recolhê-lo ao fim do dia, porque não pode fazer o mesmo com o seu pai ou com a sua mãe? Precisamos de centros de dia com horários alargados, que funcionem como um porto de abrigo seguro e estimulante enquanto os filhos cumprem as suas obrigações profissionais.

Atualmente, há imensas pessoas a trabalhar com o telemóvel ao lado, quase como um botão de pânico, para o caso de ser necessário socorrer os seus em casa.
Trabalhadores que têm de se deslocar a correr na hora de almoço para dar a medicação, com o medo constante de que os idosos a troquem, por já não terem discernimento para a tomar sozinhos.
A falta desta alternativa intermédia está a empurrar as famílias para uma ruptura inevitável.
Sem apoio diurno, muitos são obrigados a recorrer a lares de terceira idade que, para além de caros, também escasseiam. O drama reside no facto de muitos destes idosos não precisarem de uma institucionalização permanente, sendo obrigados a ela devido a esse hiato social.
Criar centros de dia eficazes é defender o direito à dignidade e ao afeto. Permite que os filhos trabalhem sossegados e que, ao final do dia, tragam os pais de volta a casa, garantindo-lhes o carinho familiar que merecem.
Cuidar dos mais velhos não é um fardo, é um dever moral. E o nosso concelho precisa de acordar para esta urgência antes que seja tarde demais.
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