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Gazeta Paços de Ferreira

05/09/2026, 0:00 h

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Museu do Sargaço na Apúlia

Cultura Opinião Abílio Travessas

CULTURA

A informação aparece-nos de súbito: Museu do Sargaço. Sem hesitação, chegámos a uma antiga escola primária que deu guarida a este museu.

Por Abílio Travessas (Colunista e Professor aposentado)

 

À entrada, um barco, de tantas e tão boas memórias: o Adamastor, para a pesca, melhor será apanha do pilado - caranguejo, aprestou-se a informar o amável e prestimoso funcionário, de tão jovem que não conheceu esta actividade nem a paralela recolha do argaço. Teve a amabilidade de nos oferecer um livro – Paisagens do Sargaço, belíssimo, donde tirei alguma informação. Por estes dias tinha falado deste barco, dimensão superior ao da pesca artesanal, e não conhecia nenhum que testemunhasse para os interessados as vidas das pessoas da beira do mar.

 

Todo o espaço, transformado por mão de arquitecto, é uma alegria para os sentidos:

 

- fotografias de António Meneres e Artur Pastor – uma das suas fotos, que não aparece no museu, é na praia da Fragosa, Aver-o-Mar, ali onde os barcos partiam e chegavam, farol a guiá-los quando preciso, e consegue, em dois planos, mostrar a vivência daquelas gentes, síntese perfeita da apanha do sargaço (argaço, na linguagem popular) – mulheres com ganha-pão na beirada do mar e, mais adentro, esbatidos no nevoeiro, homens  em cima de jangadas, os cortiços, cortam as  algas agarradas aos penedos com a foicinha e recolhem-nas com a ganchorra; em primeiro plano, um miúdo em pelota, é personagem elucidativa da criançada do mar.

 

- painéis explicativos da faina com os Utensílios/Apetrechos de Trabalho de Sargaceiro: galhapão (em Aver-o-Mar, ganhapão), graveta (ou gaiteira), arrastão (o que mais se assemelha ao nosso cortiço – jangada), foicinhão/foucinhão, cestos, carrela (carrelo/padiola), gancha (ganchorra);

 

- réplicas do ganha-pão (diferente do nosso, fechado, não aberto à frente); dos trajes típicos:  branqueta, “casaco de abas largas, até meio da coxa, cingido ao corpo até à cintura e alargando para baixo em forma de saiote, de modo a deixar inteiramente livres os movimentos das pernas. É feito de pura lã, de cor natural, o branco, donde vem o nome”; sueste, protecção da cabeça. As sargaceiras de Aver-o-Mar e os homens dos cortiços não usavam vestimenta própria. Gravetas e carrela, semelhantes às nossas. Os carros de bois não eram usados entre nós, mas o cavalo aparece numa fotografia do livro de Saramago Viagem a Portugal a puxar o sargaço para a secagem tirada numa praia de Aver-o-Mar; os tractores só muito tarde aparecem na ajuda ao transporte das algas.

 

- um vídeo revelador da violência do trabalho, homens afrontando as ondas (mais uma diferença, as mulheres só ajudavam no carrego, na nossa freguesia eram elas a arcar com o trabalho de arrancar o sargaço ao mar tantas vezes revoltoso).

 

Estamos perante duas comunidades piscatórias tão diferentes nesta actividade, abandonada pela força do progresso na adubação das terras, pela violência que só a pobreza obrigava. Agora o sargaço apodrece nas areias à espera que alguém o remova…

 

 

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