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Gazeta Paços de Ferreira

05/09/2026, 0:00 h

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Entrar na faculdade já com o rótulo no pescoço…

Educação Opinião Celina Pereira

OPINIÃO

Há coisas que me deixam profundamente perplexa. Uma delas é a facilidade com que transformamos uma conquista individual numa exposição pública da vida financeira de alguém.

Por Celina Pereira

 

Um jovem entra na universidade com uma média notável, num curso altamente competitivo. É uma excelente notícia. Mas logo a seguir surge o detalhe crucial que a imprensa faz questão de sublinhar: "É do escalão A".

 

Aparentemente, a conta bancária dos pais virou nota de rodapé obrigatória no currículo.

 

Fico a pensar na utilidade desta nota explicativa. A nota de entrada é pública. O curso e a universidade também. Mas que informação essencial traz a condição económica da família para o feito do estudante? Será que quando alguém entra em Medicina com 18 valores precisamos do IRS dos pais para validar se esses 18 são mesmo 18? Ou será que o sistema precisa de provar que a caridade funciona, usando o aluno como modelo de exposição?

 

Confundimos informação com rotulo. Ser rico não torna ninguém inteligente, assim como nascer com dificuldades financeiras não concede a ninguém, por magia, o estatuto de génio. Ter meios proporciona melhores escolas, explicações e condições de estudo, uma vantagem inegável, mas não um certificado de superioridade intelectual. Por outro lado, colar o estigma de "carenciado" a quem triunfa pelo próprio mérito não é uma celebração,  é uma falsa empatia que só serve para marcar as pessoas.

 

 

 

 

A ironia é de pasmar: dizemos que combatemos o preconceito social enquanto catalogamos os jovens à entrada da faculdade. "Este entrou em Medicina, aquele em Direito, e aquele ali... olhem só, e até  é do escalão A!".

 

Querem falar do sucesso dos apoios sociais? Excelente. Falemos do sistema, das políticas públicas e dos números gerais. Mas não transformem o estudante num troféu da sua própria classe económica.

 

Talvez os jornalistas que tanto apreciam publicar o escalão alheio pudessem fazer o exercício oposto: imaginar a sua própria condição financeira estampada nos jornais no dia em que entraram na faculdade. Provavelmente já achariam a transparência um bocadinho invasiva.

 

Um jovem que entra no ensino superior merece ser notícia pela porta que abriu com o seu esforço. Não pelo tamanho da carteira que deixou à porta.

 

 

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