11/07/2026, 10:05 h
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Cultura Opinião Abílio Travessas
CULTURA
Por Abílio Travessas (Colunista e Professor aposentado)
Liga-me à cidade a clássica do ciclismo, Liège-Bastogne-Liège, que acompanho na TV; à Bélgica, o grande Jacques Brel de La valse à 1000 Temps e Ne Me Quite Pas; mas também à nossa história: Isabel de Portugal, a única filha da Ínclita Geração de D. João I e Filipa de Lencastre, casou com Filipe o Bom, duque de Borgonha e o filho, Carlos o Temerário, foi derrotado pelo rei de França, Luís 11, A Raposa, na Batalha de Nancy, 1477. Dados da Wikipedia: os cidadãos de Liège eram ferozmente independentes e apoiados pelo rei o que levou Carlos, o Temerário, senhor feudal, a destruir a cidade em 1468. O conflito arrastou-se até à derrota do filho de Isabel de Portugal. Nota trágica: à rainha, de origem portuguesa, morreram o filho, e o irmão, o Infante D. Pedro, duque de Coimbra, este na Batalha de Alfarrobeira, ambos em conflito com o rei, ambos abandonados no campo de batalha, aos cães e aos lobos.
Na intervenção oratória frustrada, depois de felicitar os vencedores, a organização e o único árbitro que, sem auxiliares, conseguiu agradar a todos, propunha-me dar conta dum texto do Le Monde, comprado no dia, com o título “FOOTBall(S)” AU PAYS DU SOCCER. “É difícil para os europeus reprimir um sentimento de superioridade quando a questão é o soccer”, escreve o historiador do futebol Paul Dietschy no editorial do último número da revista Football(s). Mas vou ao que me interessou mais neste artigo, transcrevendo, do etnólogo Christian Bromberger, o que escreveu, consagrado ao pé: “o desporto mais popular no mundo, o futebol, inverte as lições de antropologia”, dando ao pé uma missão que não é a sua, nota o autor“. Parece que a humanidade deu um passo atrás, regressando a estados anteriores da evolução, o estado duma “preensão locomotora” onde, como entre os macacos, o indivíduo se serve do pé como da mão”.

Donde alguns aspectos específicos deste desporto, prossegue M. Bromberg: o fraco número de golos marcados no decorrer da partida, em comparação com outros desportos com bola; o pouco sucesso em muitas ocasiões de golo; o golo na própria baliza, o que só acontece no futebol, resultado duma má utilização dos pés. É assim que, mais do que em outras disciplinas, “o aleatório” ocupa um lugar importante neste desporto em razão da complexidade técnica do jogo fundado na utilização anormal do pé”. E que “o futebol, com o jogo ligado aos pés, é seguramente uma metáfora da vida”.
Ainda houve tempo para visita à Catedral de Liège, já não ao Tesouro da Catedal, em que se encontra o Relicário do Temerário, em ouro e prata, com o peso de 5.060 Kg.
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