17/05/2026, 0:00 h
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OPINIÃO
Por Joaquim António Leal
E como escrevinhador não preciso de justificar o que digo, de dizer as coisas da forma mais correta nem de embrulhar as frases como se fossem ramos de flores para oferecer à amada.
Escrevo. Não desenho ideias com pedaços de nuvens algodoadas ou resíduos cintilantes de cometas viageiros, limito-me a pegar nos sons da língua e a misturá-los como quem faz um batido de leite com laranjas: umas vezes sai doce, outras acidulado, mas sempre diferente do que imaginava quando liguei a batedeira elétrica.
Todavia, escrevo, e não coloco a hipótese de parar. É que parar não é morrer, é mesmo desistir da vida, e, então, fazê-lo seria abdicar de mim como um todo, o que, convenhamos, seria pedir-me de mais. Sei que muitas vezes incomodo, afirmo verdades (as mentiras são sempre os outros que as dizem) que muitos não desejam ouvir. E talvez esta forma de estar seja má, e antissocial, e malévola, e impeça a felicidade daqueles que procuram realizar-se na ignorância, mas quanto a isso não há muito que se possa fazer em boa consciência.
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Caminho erraticamente por uma estrada sem fim, inclinando-me demasiado nas suas curvas e nem sempre respeitando as forças gravíticas, por vezes arriscando seguir a direito, por vezes perdendo-me. Desisti há muito de tentar desvendar o que existe no final do percurso, satisfaço-me com a ideia de que o caminho é para ser apreciado por si só, em cada avanço ou recuo, na certeza de que este é a única verdade que nos resta.
E, apesar de tudo, escrevo. Não como quem oferece uma receita para que outros a apliquem na confeção do seu prato favorito, mas como quem atira uma pedra ao rio simplesmente para ouvir o ploc-ploc. As palavras não têm sempre de fazer sentido, de serem objetivas, de transmitirem informações. Temos de as libertar, deixá-las ganhar vida, voarem, mesmo que se machuquem na loucura de experimentarem a novidade.
Contudo eu, que nem sempre compreendo o que escrevo, afeiçoo-me a elas como a um filho, e sinto sérias dificuldades em deixá-las partir. Mas isto sou eu a reduzir as palavras ao que não quero que elas sejam, aprisionando-as, obrigando-as a significar, não as deixando libertar-se, encontrar novos rumos, criar novas vidas.
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