19/06/2026, 0:00 h
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Educação Opinião ROSÁRIO ROCHA
EDUCAÇÃO
Por Rosário Rocha (Professora do AE Frazão)
O que são Comunidades de Aprendizagem?
É um modelo de transformação educativa que une escolas, famílias e comunidade local, em que todos participam ativamente no processo de aprendizagem dos alunos. Assenta da Aprendizagem Dialógica que preconiza que todos aprendem a partir da interação com os outros. Através do diálogo igualitário, da inteligência cultural, há uma transformação e melhoria do desempenho escolar e inclusão social.
Implementam-se algumas Ações Educativas de Sucesso: Grupos Interativos, Tertúlias Dialógicas, Biblioteca Tutorada, Prevenção de Conflitos, Formação de Pais e de Professores.
Nas escolas que visitei nem todas são Comunidades de Aprendizagem, mas todas implementam as Ações de Sucesso que consideram mais pertinentes. As mais frequentes são os Grupos Interativos, Tertúlias Dialógicas e Biblioteca Tutorada.
Em que consiste cada uma? Tertúlias Dialógicas são dinâmicas em que os alunos leem um excerto de um clássico e partilham com os colegas o seu ponto de vista, a sua perceção, os seus sentimentos. Não há certo nem errado, ouvem-se os outros e pode-se partilhar que foi percecionado de forma completamente diferente, até porque cada um tem direito à sua opinião. Essencialmente, desenvolve-se o respeito pela opinião dos outros, e aprende-se que há diferentes pontos de vista.
Nos grupos interativos e biblioteca tutorada a comunidade local coopera com a escola. Nos grupos interativos, familiares, vizinhos, quem estiver disponível, desenvolvem atividades orientadas pelos professores e os voluntários assumem o papel de acompanhar em pequenos grupos a realização de tarefas académicas, incentivando a interação entre os elementos do grupo. Fomenta-se o diálogo. Os alunos participam mais e os voluntários também aprendem e desenvolvem competências. Escola e Comunidade aprendem em conjunto e desenvolvem-se. Na Biblioteca Tutorada funciona mais como um local onde os alunos podem ir no fim das aulas, para complementar ou realizar atividades, como, por exemplo, trabalhos de casa ou pesquisas.
O que percecionei em Pamplona
As escolas funcionam das 9h às 14h. Poucos são os miúdos que almoçam na escola, a maioria vai para casa no final das aulas. Se almoçarem, vão embora depois do almoço ou se tiverem Biblioteca Tutorada podem frequentá-la, regressando a casa por volta das 16h.
Todas as escolas que visitei têm múltiplas nacionalidades: numa havia 25 e noutra 30, e estamos a falar de escolas entre 200 e 400 alunos. Encontramos alguns portugueses, o que nos provocou entusiasmo e a eles também. Estavam bem integrados e quase serviram de nossos guias. A mistura de culturas não é um entrave, é aproveitada para o crescimento coletivo.
As escolas abrem-se à Comunidade e trabalham de forma articulada, embora respeitando o papel de cada um. Há uma prática muito consolidada em Espanha: a docência compartilhada. Embora as turmas sejam bem mais pequenas do que em Portugal (quase não encontrei grupos acima de 20, e frequentemente não chegavam aos 15), uma grande parte do tempo existem dois professores em sala de aula o que permite um acompanhamento próximo aos alunos. Os próprios alunos ajudam-se constantemente e trabalham em pares ou grupo, mas têm sempre professores que ajudam no momento e tiram dúvidas.

Senti um ambiente leve nas salas de aula, quer entre alunos, quer entre professores. Não se sentia cansaço nem exaustão e estavam a terminar as aulas.
Vim encantada de lá com uma situação: a autonomia das crianças. São miúdos habituados desde os 3 anos a mexer em tudo e mais alguma coisa, a cooperarem entre si e a desenrascarem-se! As salas estão apetrechadas com materiais corriqueiros (areia, feijões, caricas, água, terra…) e eles mexem, exploram, descobrem, constroem, sujam-se…e depois com 3 anitos arregaçam as mãos e lavam-se sozinhos! Desenvolvem a criatividade e a autonomia e talvez por isso não seja estranho ver miúdos da primária a irem de bicicleta ou trotinete para a escola.
Ideias que trouxe
Gosto de ver o que se faz noutros sítios e pensar o que posso colher daí para melhorar a minha prática. Melhorar como professora, é poder melhorar a aprendizagem dos alunos e a Comunidade em Geral. De Pamplona trouxe algumas ideias, certezas e questionamentos também.
Os nossos edifícios são bem melhores do que os que visitei, mas questionei-me se isso serviu para evoluir ou regredir. Será que evoluímos ou regredimos ao procurarmos ter salas e espaços limpinhos e organizados? Já tivemos pouco material didático nas escolas, mas tínhamos elementos naturais. Já trabalhamos muito com areia, barro, feijões, pauzinhos, lãs e afins… Quantos miúdos temos atualmente que não podem ver ou sentir um pozinho nas mãos o que é um problema e, se encaminhados para serviços médicos, aparecem com um diagnóstico qualquer de hipersensibilidade, normalmente com um nome pomposo.
Para não me alongar, acho que regredimos. Precisamos voltar a ter ambientes em que as crianças desde cedo se sujem, explorem, se entranhem, através dos sentidos, na Natureza e nos materiais. É necessário que as crianças vivenciem, sejam colocadas em situações que os desafiem, mas que lhes permitam desenvolver competências de autonomia e de segurança. Só vivenciando, podem desenvolver essas competências. Temos que deixar um bocadinho para trás a cultura de livros, cadernos, lápis e canetas; de cópias e afins.
Os programas do Ministério têm que ser reajustados: o tempo não chega para tudo, mas tem que se priorizar a aprendizagem da vida e para a vida e perder menos tempo a marrar conceitos que daí a 3 meses já ninguém se lembra e não são precisos para nada.
Trouxe ideias para implementar, embora não saiba se o vou conseguir, mas sei que vou tentar que os meus alunos explorem, se sujem e se limpem sozinhos, sejam cada vez mais autónomos e desenrascados.
Há uma situação que me fascinou: a forma como todas as nacionalidades são incluídas. O olhar com que se olha cada aluno de uma nacionalidade diferente: como oportunidade de acrescentar/enriquecer e não subtrair. Fala-se orgulhosamente em riqueza cultural e eu senti-me orgulhosa de ter lá também portugueses. E pensei: sempre que tiver alunos de outras nacionalidades, vou aproveitar a sua riqueza cultural para que os restantes possam viajar através das suas experiências e sei que todos vão ganhar neste Mundo que é cada vez mais colorido.
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