Por
Gazeta Paços de Ferreira

19/09/2026, 0:00 h

8

Surdos por opção

Opinião Ricardo Neto

OPINIÃO

"O sino, esse continua a tocar a rebate, estrondoso e implacável, uma cheia diluvial aqui, um bombardeamento genocida ali, uma criança não vacinada morta acolá… mas nós seguimos de queixo colado ao ecrã!"

Por Ricardo Jorge Neto

 

Numa antiga aldeia existia uma nobre casa com um majestoso sino. Um homem, que por lá passava todos os dias, parava sempre para o admirar e cobiçar.

 

O seu maior desejo era ter aquele sino, para depois o derreter e ficar rico com a venda daquele valioso metal.

 

Mas roubar um objeto tão grande, pesado e barulhento como aquele era uma tarefa hercúlea e complicada. Ao mínimo toque, o seu som ensurdecedor acordava e sobressaltava toda a aldeia.

 

Como poderia ele roubar aquele sino? Se o tentasse partir ou carregar inteiro, este iria ecoar pela aldeia, e foi aí que teve uma ideia brilhante: se ele tapasse muito bem os seus próprios ouvidos, o som do sino ficaria inaudível! Assim, para colocar o plano em prática, colocou panos nos ouvidos, e o som ficou completamente isolado; ele não ouvia nada!

 

Pela madrugada, foi até à casa do sino e, convencido de que o barulho não estava a ser produzido — porque ele não sentia som algum —, começou a martelar o sino com força. O estrondo do sino fez-se ecoar por colinas e vales, e acordou todos na aldeia!

 

Pouco depois, o pobre tonto foi apanhado em flagrante pelos guardas e pelos donos da casa, perante o olhar de muitas pessoas da vizinhança.

 

 

 

 

O homem ficou incrédulo: como fora descoberto se ele próprio, ali mesmo ao lado do sino, não tinha ouvido absolutamente nada?

 

A história tem contornos exagerados, recheados de imbecilidade, mas já reparam como todos temos vivido nos últimos anos?

 

Não seremos hoje aquele homem, mas com uma técnica de colocar panos mais avançada, em que basta colocar auriculares com cancelamento de ruído e um feed infinito de distrações e mentiras?

 

Já repararam quão incapazes somos de ver o nosso reflexo no ecrã escuro do telemóvel? Nega-se o clima, a guerra, a história, a ciência e nega-se o outro que suplica ao nosso lado, enquanto nos instalamos confortavelmente na nossa ignorância voluntária.

 

O sino, esse continua a tocar a rebate, estrondoso e implacável, uma cheia diluvial aqui, um bombardeamento genocida ali, uma criança não vacinada morta acolá… mas nós seguimos de queixo colado ao ecrã!

 

Um dia seremos surpreendidos, quando a realidade nos tocar no ombro, e descobrirmos que o mundo real afinal não tinha um botão para o silenciar! E nessa hora vamos questionar-nos como não ouvimos o sino repicar.

 

 

ASSINE A GAZETA DE PAÇOS DE FERREIRA

Opinião

Opinião

Surdos por opção

19/09/2026

Opinião

Vamos ver se é desta que percebemos!

13/09/2026

Opinião

Um concelho que dê futuro aos nossos

13/09/2026

Opinião

O primeiro dia de aulas começa muito antes de Setembro

13/09/2026