08/03/2026, 0:00 h
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OPINIÃO
Por Artur Costa (Juiz-Conselheiro jubilado, ex-cronista do JN)
Com a sua eleição para o segundo mandato, já se esperava que Trump pusesse em rebuliço não só a política interna dos Estados Unidos da América (EUA), mas também a ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial, assente no direito e nas relações multilaterais entre os Estados. Acontece que, ao longo deste primeiro ano de mandato, o inaudito presidente dos EUA já semeou tanta confusão e protagonizou tanta trapalhada, que deixam completamente apalermado o mais arguto observador do mundo e o mais fino perscrutador da alma humana.
A mais recente informação que nos chega do personagem escancara-nos, para além do que já conhecíamos, a sua visão do lugar que ocupa o poder judicial e os outros poderes no equilíbrio desejável no âmbito de um Estado de direito democrático. Com efeito, Donald Trump leva a sua indignação pela recente decisão emitida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou ilegítima, por maioria, a imposição de tarifas à generalidade dos parceiros comerciais, ao ponto de insultar os juízes que votaram tal decisão, dois dos quais por si nomeados, mimoseando-os com impropérios como tolos e cachorinhos de colo e apodando-os de não patriotas e desleais à Constituição, ou seja, a ele próprio.

O imaculado presidente, que se ufana de não haver referências nenhumas ao seu nome nos ficheiros do pedófilo e agente de prostituição Jeffrey Epstein (muita gente acha “maldosamente” que há “coisa” nessa ausência), deu-se ainda ao luxo de, passando por cima da referida decisão e num gesto verdadeiramente imperial, proclamar uma nova tarifa global de 15%. E mais: passa olimpicamente por cima do poder legislativo, como noutras situações, declarando que não tenciona usar essa via, apesar de o STF ter exarado na referida decisão a exigência de “uma clara autorização do Congresso”.
Em suma, o presidente que abrilhanta esta crónica é actualmente o sumo pontífice de uma nova velha ordem baseada no descarte das instituições democráticas que embaracem o poder imperial do presidente, a não ser que encarnem o papel de suas infalíveis servidoras ou amplificadoras da sua vontade. O poder é ele e só ele, magnificado pela sua auto-reconhecida excelsitude. Ele é agora o global presidente vitalício do Conselho da Paz recentemente criado por si para ombrear com as Nações Unidas e projectar o seu nome no mundo inteiro per omnia secula seculorum.
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