08/08/2026, 0:00 h
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OPINIÃO
Por Ricardo Jorge Neto
Coimbra, a terra dos estudantes, tem como sua padroeira a Rainha Santa Isabel. No último ano fez precisamente 400 anos que ela foi canonizada e passou a ser venerada com o estatuto de santidade. Apesar de muito distante no tempo, o seu milagre das rosas jamais foi esquecido e será provavelmente o milagre mais conhecido e recordado pelos portugueses. A Rainha Isabel, nascida em Saragoça, Espanha, era muito bondosa com os pobres. Um dia, quando saía para dar pão aos mais necessitados, o Rei Dom Dinis surpreendeu-a e perguntou-lhe o que levava no regaço. Isabel sabia que ele não aprovava as suas práticas de caridade e, por isso, disse-lhe que eram rosas… Mas, como estava em janeiro, o Rei entendeu que ela estaria a mentir. Isabel então abriu o regaço e disse: “São rosas, Senhor!’’, e milagrosamente caíram rosas!
Este milagre da salvação no último segundo poderá explicar o sentido tão português de deixar tudo para a última hora e rezar pelo milagre de que tudo acabe por correr bem. E este ano, em Portugal, este milagre tem sido tentado várias vezes — umas vezes com êxito, outras não. Lembremo-nos do pacote laboral, quando todos sabiam que André Ventura carregava o voto favorável; este, ao levantar-se, abriu o seu regaço, e Montenegro e Rosário Palma Ramalho de lá viram cair o milagroso chumbo, dizendo: “São as sondagens, Senhor!”.

Mas nem sempre este volte-face corre bem no final, que o diga o ministro da Educação, Fernando Alexandre, com a sua radical reforma nos exames nacionais. Imaginem que nunca confecionaram Capão à Freamunde, e na primeira vez em que se atrevem a fazê-lo, escolhem um casamento com 500 convidados! Acham que seria sensato? Não existiria uma probabilidade de alguma, ou até muita, coisa correr mal? Bem, foi exatamente o que Fernando Alexandre decidiu fazer nos exames. E, para agravar, os “convidados” eram os estudantes — não apenas os de Coimbra, mas os do país inteiro — e o “casamento” contou para todas as disciplinas! Depois de querer fazer tudo, para todos, e tudo ao mesmo tempo, o ministro confiou no velho espírito português da salvação mesmo no finalzinho, com as rosas a cair do regaço! Mas desta vez não! Alunos, pais e professores entraram num verdadeiro colapso. Alunos desesperados por desconhecerem o paradeiro dos seus exames — e desta vez juram que não foi o cão que os destruiu —, pais agoniados por falta de respostas e professores ansiosos e traumatizados, acordando de noite com pesadelos porque mais uma prova chegara à plataforma para ser corrigida com urgência… A procissão ainda vai no adro, mas quando chegar ao polivalente vai cair a Carmo e o Fernando! Porque ninguém acreditou no governo quando, questionado sobre de quem era a culpa na tragédia dos exames, do seu regaço, em vez de ter caído o ministro, a resposta foi: “São os QR Codes, Senhores!”
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