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Gazeta Paços de Ferreira

26/03/2026, 13:26 h

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José Carlos Vasconcelos homenageado no festival da sua terra adotiva

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Desde criança que a maresia da Póvoa de Varzim se entranhou na vida de José Carlos Vasconcelos. O advogado, que, antigo regime, se notabilizou ao lado de Jorge Sampaio, na defesa dos direitos humanos e dos presos políticos, alimenta-se todos os dias de pequenas fatias de poesia, fazendo do jornalismo uma causa maior. Resistiu, como pode, mas com garra na manutenção do Jornal de Letras, uma referência do Jornalismo Cultural do nosso país.

 

A organização do encontro literário Correntes d’Escritas dedicou, na edição deste ano, entre os dias  21 e 28 de fevereiro, uma ampla homenagem ao jornalista, advogado e poeta José Carlos Vasconcelos, figura com fortes raízes na Póvoa de Varzim e voz marcante da vida cultural e cívica portuguesa.

 

Ao assinalar a 27.ª edição, o Correntes d’Escritas elegeu José Carlos Vasconcelos como personalidade em destaque, fazendo dele a figura central da sessão de abertura do festival. 

 

 

Uma revista inteiramente dedicada a José Carlos Vasconcelos 

 

A 25.ª Revista Correntes d’Escritas é inteiramente dedicada ao homenageado, sublinhando a sua ligação antiga ao encontro e à cidade.

 

A Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, que promove o festival há 27 anos, sublinhou o carácter “justo e oportuno” da distinção, de um autor que ali começou a intervir culturalmente e para quem o mar e a Póvoa são temas recorrentes. 

 

Também o Município de Paços de Ferreira, terra natal do jornalista, nascido em Freamunde, assinalou publicamente o orgulho pela homenagem, lembrando-o como uma das maiores personalidades do concelho e uma figura incontornável da cultura nacional.

 

Na sessão, José Carlos Vasconcelos partilhou memórias do percurso que o liga à Póvoa e à literatura, num diálogo moderado por Onésimo Teotónio de Almeida e Manuel Alberto Valente, em que o jornalismo, a poesia e a intervenção cívica surgiram como dimensões inseparáveis do seu trabalho. 

 

A homenagem foi também reforçada pela presença do Observatório Cultural José Carlos Vasconcelos, de Paços de Ferreira, criado em seu nome pela autarquia, simbolizando o reconhecimento institucional do seu legado.

 

José Carlos Torres Matos de Vasconcelos nasceu em Freamunde, concelho de Paços de Ferreira, a 10 de setembro de 1940, mas viveu e estudou desde muito cedo na Póvoa de Varzim, onde fez a escola primária e o liceu. Foi na cidade poveira que iniciou a atividade jornalística e cultural, colaborando ainda muito jovem na imprensa local e publicando o seu primeiro livro de poemas, “Canções para a Primavera”, em 1960.

 

Licenciou-se em Direito em Coimbra, destacando-se como dirigente estudantil em plena luta académica contra a ditadura. Foi presidente da Assembleia Magna da Associação Académica de Coimbra, chefe de redação do jornal estudantil “Via Latina” e colaborador da revista Vértice. Fundou e presidiu ao Círculo de Estudos Literários e integrou o TEUC, cruzando a intervenção política, cultural e artística num tempo de forte contestação ao regime de Salazar.

 

Como advogado, defendeu presos políticos e jornalistas, bem como vários artistas visados em processos de costumes na década de 1970, ao mesmo tempo que se profissionalizava no jornalismo, entrando em 1966 para o Diário de Lisboa. 

 

Após o 25 de Abril, foi diretor-adjunto do Diário de Notícias, assumiu funções na direção de informação da RTP, onde, com Fernando Assis Pacheco, criou o programa literário “Escrever é Lutar”, e integrou o Conselho de Opinião da estação pública.

 

Foi um dos fundadores de “O Jornal”, propriedade dos próprios jornalistas, de que viria a ser diretor, liderando um grupo que deu origem a várias publicações, a uma editora e à TSF – Rádio Jornal, em parceria com uma cooperativa de profissionais de rádio. Mais tarde, integrou a direção editorial da revista Visão e tornou-se diretor do Jornal de Letras, Artes e Ideias (JL), cargo que manteve como uma das referências da imprensa cultural em Portugal.

 

Ao longo das últimas décadas, acumulou também funções em órgãos de referência da sociedade civil, como presidente do Conselho Geral do Sindicato dos Jornalistas, presidente da assembleia geral do Clube de Jornalistas e membro do Conselho Geral da Fundação Calouste Gulbenkian. 

 

Reconhecido como jornalista, advogado e poeta, construiu uma carreira alicerçada na defesa da liberdade de imprensa, na divulgação da literatura e na promoção de um espaço público mais aberto ao debate de ideias.

 

 

 

 

Presidente da Câmara de Paços de Ferreira agradece reconhecimento

 

Em nome do Município de Paços de Ferreira, o Presidente do Executivo Municipal, Paulo Ferreira, expressou um profundo agradecimento à Câmara Municipal da Póvoa de Varzim pela homenagem prestada a José Carlos Vasconcelos, natural de Freamunde, na 27.ª Edição das Correntes d’Escritas 2026.

 

Para Paulo Ferreira, “é com grande orgulho que vemos reconhecido o percurso notável de um filho do nosso concelho, cuja vida e obra têm contribuído de forma exemplar para a cultura, o jornalismo e a defesa da língua portuguesa”.

 

Agradecendo à autarquia poveira por esta distinção, que honra também todo o concelho de Paços de Ferreira e reforça os laços de amizade e cooperação entre as duas comunidades, Paulo Ferreira lembrou que o Município criou o Observatório Cultural José Carlos Vasconcelos para a promoção da cultura e das tradições do concelho de Paços de Ferreira.

 

 

 

 

UMA OBRA COM DUAS DEZENAS DE TÍTULOS PUBLICADOS

 

José Carlos Vasconcelos tem uma obra vasta, com cerca de duas dezenas de títulos publicados, que atravessa a poesia, o ensaio sobre liberdade de imprensa, o testemunho jornalístico e o livro para leitores jovens. A sua produção poética começa cedo e acompanha, muitas vezes, a história política e social do país, em particular no período anterior e posterior ao 25 de Abril.

 

Entre os livros de poesia e obras literárias destacam-se:

  • “Canções para a Primavera” (1960) – primeiro livro de poemas, publicado ainda muito jovem na Póvoa de Varzim.
  • “Tempo de elegia” (1961). 
  • “Corpo de esperança” (1964). 
  • “Elegias: vértice” (1965). 
  • “De poema em riste” (1970). 
  • “Poemas para a revolução” (1975), diretamente ligado ao clima político da Revolução de Abril. 
  • “De águia a zebra” (1978). 

 

A ligação afetiva e estética à Póvoa de Varzim e ao mar surge em títulos como:

  • “O mar a mar a Póvoa: poemas com nove estudos de Júlio Resende” (2001).
  • “O mar a mar a Póvoa II” (2013). 

 

Na intersecção entre jornalismo, crónica e memória, destacam-se: 

  • “Repórter do coração” (2004). 
  • “O sol das palavras” (2010). 
  • “Conversas com Saramago: os livros, a escrita, a política, o país, a vida” (2010), conjunto de entrevistas e diálogos que revelam a relação de proximidade com o Nobel português. 

 

Para leitores mais jovens e público infantojuvenil, publicou livros como: 

  • “Arco, barco, berço, verso” (2005; edição posterior em 2010). 
  • “Caçador de pirilampos” (2007). 
  • “A fantástica história de Florzinha, gota de água” (2010). 
  • “A gaivota e o passaroco” (2011). 

 

 

ESTUDIOSO DO DIREITO DA COMUNICAÇÃO

 

Na área da reflexão cívica e profissional, é autor de “Liberdade de imprensa: lei de imprensa” (1972), obra que o afirma também como estudioso do direito da comunicação num período de forte censura. 

 

Conjugando poesia, crónica, ensaio e entrevista, a bibliografia de José Carlos Vasconcelos confirma a coerência de um percurso em que a escrita é, simultaneamente, ofício, militância e forma de intervenção cultural.

 

A conferência de abertura teve por título “A Vida entre as Letras, uma voz insubmissa”, sublinhando a ideia de uma vida dedicada à escrita, à liberdade e à intervenção cívica. A organização assinalou que, “desta vez, com as voltas trocadas”, o habitual moderador da sessão de abertura passava a ser ele próprio o homenageado e conferencista, acentuando o simbolismo desse momento.

 

 

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