23/09/2026, 14:43 h
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SAUDE
Setembro tem qualquer coisa de recomeço. Voltamos ao trabalho, às escolas, aos horários, às agendas e às rotinas que, durante algumas semanas, deixámos suspensas. E talvez seja também uma boa altura para voltar a olhar para uma coisa que, muitas vezes, fica para trás: a nossa saúde.
Não gosto particularmente do termo check-up. Talvez porque transmita a ideia de que, em determinada altura do ano, devemos fazer uma espécie de revisão geral do organismo, acompanhada de uma longa lista de análises e exames. A prevenção não é isso.
Na Medicina Interna, prevenção não significa apenas evitar que a doença apareça. Significa também cuidar da doença que já existe, controlar os seus fatores de risco, prevenir complicações e reconhecer precocemente sinais de agravamento. Porque uma doença crónica não é uma fotografia: é um processo que evolui, com períodos de maior estabilidade e outros de descompensação. E o seguimento deve ser capaz de acompanhar também essas mudanças.
Durante o verão é natural que algumas rotinas se alterem. Dormimos a horas diferentes, comemos de outra forma, fazemos mais ou menos exercício, esquecemos, ocasionalmente, um medicamento ou adiamos aquela consulta que estava marcada “para depois das férias”. Nada disto é, por si só, dramático. O problema surge quando o provisório se transforma em permanente.
O doente acompanhado pela Medicina Interna é frequentemente um doente complexo, com várias doenças crónicas, polimedicado e com vários fatores de risco que se influenciam mutuamente. Hipertensão, diabetes, doença cardiovascular, insuficiência renal, obesidade, doença respiratória… raramente aparecem isoladas.
Acompanhar uma doença crónica é acompanhar a sua evolução. É reconhecer quando o equilíbrio se começa a perder, identificar precocemente sinais de agravamento, ajustar terapêuticas e prevenir complicações. Mas é também perceber o que acontece à pessoa para além dos diagnósticos: se mantém a autonomia, se surgiram novas limitações, se a medicação continua adequada ou se as suas necessidades mudaram.
Nem sempre a resposta está em pedir mais exames. Muitas vezes, está numa boa história clínica, num exame objetivo cuidadoso e na capacidade de integrar toda a informação para tomar a decisão certa, no momento certo.
Prevenção é conhecer a tensão arterial, o peso, a glicemia e o colesterol quando estão indicados. É manter atividade física, cuidar da alimentação, não fumar, moderar o consumo de álcool e não desvalorizar a saúde emocional. É cumprir os rastreios recomendados, mesmo quando não existem sintomas. E é rever periodicamente a terapêutica de quem toma muitos medicamentos.
Mas talvez seja sobretudo compreender que cuidar da saúde não é um acontecimento anual. É um processo contínuo.
Por isso, setembro pode ser uma boa oportunidade. Não para marcar um check-up por rotina, nem para pedir uma bateria de exames “para ver se está tudo bem”, mas para parar um momento e perguntar: estou a cuidar da minha saúde de forma consistente? E, se tenho uma doença crónica, o meu plano de cuidados continua adequado à pessoa que sou hoje?
Porque a melhor prevenção talvez não seja descobrir uma doença quando ela já se instalou: é acompanhar a pessoa enquanto ainda podemos mudar a sua história.
ireneia Lino - Especialista de Medicina Interna da Clínica Affidea de Évora
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