24/10/2026, 9:39 h
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OPINIÃO
Por Sílvia Azevedo (Presidente e Diretora Pedagógica do Conselho de Administração da Academia Profissional Prof. Albino de Matos)
Não estamos perante um movimento único e seria um erro ignorar aquilo que estas manifestações nos estão a querer dizer sobre as sociedades que estamos a construir.
Durante décadas, transmitimos às novas gerações a promessa de que estudar e trabalhar com esforço dar-lhes-ia uma vida melhor. Uma promessa que não se cumpre.
Trabalha-se, mas não se consegue viver com dignidade. Estuda-se, mas não se encontram oportunidades. Poupa-se, mas não se consegue ter uma casa.
As pessoas estão desesperadas! Ouvem discursos políticos que falam de crescimento económico e de fortes indicadores. Mas de que vale o crescimento económico quando tantas famílias continuam a fazer contas para chegar ao fim do mês? De que serve celebrar os níveis de qualificação das novas gerações quando tantos jovens não conseguem sair de casa dos pais? E de que serve falar em desenvolvimento quando o acesso à habitação, à saúde e a uma vida digna continua a ser um horizonte longínquo.
É preciso perceber que um país não pode considerar-se verdadeiramente desenvolvido apenas porque os seus indicadores económicos melhoram. Há uma boa parte da população que não sente essa melhoria.
Enquanto profissional da educação, preocupa-me particularmente aquilo que estamos a transmitir aos nossos jovens. Continuamos a defender que a educação é o caminho para a mobilidade social. E é. Mas essa promessa exige emprego digno, salários justos, habitação acessível e condições para construir um projeto de vida.
Que credibilidade tem uma sociedade que exige qualificações cada vez mais elevadas, mas não consegue garantir oportunidades compatíveis com o esforço que pede?
É demasiado fácil responsabilizar quem governou antes. É demasiado cómodo justificar tudo com crises internacionais. E é demasiado insuficiente anunciar medidas sem avaliar se chegam, efetivamente, às pessoas.

Os problemas são complexos e muitos resultam de decisões acumuladas ao longo de décadas. Mas reconhecer essa complexidade não pode servir para diluir responsabilidades.
Governar não é apenas administrar recursos é, sobretudo fazer escolhas. E cada escolha revela aquilo que verdadeiramente consideramos prioritário. Precisamos de olhar para as manifestações com maior maturidade democrática. A violência que decorreu no Porto, não pode voltar a repetir-se. As pessoas têm legitimidade e direito de protestar, de questionar e de exigir respostas. Sem violência e ou vandalismo.
Uma democracia não se fragiliza porque os cidadãos se manifestam pacificamente. Fragiliza-se quando as instituições deixam de ouvir e quando a distância entre governantes e governados se transforma em vazio.
A Europa está nas ruas.
O problema não está nas ruas que se enchem de protestos, mas nas políticas públicas que, ao longo de décadas e à escala global, não conseguiram responder às necessidades fundamentais das pessoas. É um problema económico, social e, inevitavelmente, político.
Porque quando viver com dignidade se transforma numa reivindicação, é a própria ideia de progresso que temos de questionar.
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