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Gazeta Paços de Ferreira

11/03/2026, 19:54 h

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Álvaro Neto: A Alma Irrequieta que Marcou Gerações em Paços de Ferreira

Atualidade Opinião Álvaro Neto

OS NOSSOS NO PARLAMENTO

Não podia deixar de registar, no segundo texto que escrevo para a Gazeta de Paços de Ferreira, o respeito e a admiração devidos a uma figura incontornável do nosso concelho, homem que também dirige este jornal e que, de algum modo, me trouxe de volta a estas páginas: o Dr. Álvaro Neto.

Por Humberto Brito (Deputado à Assembleia da República pelo Partido Socialista)

Há pessoas sobre as quais não basta um apontamento ligeiro, uma crónica de circunstância. Exigem demora, exigem memória, exigem verdade. E falar de Álvaro Neto é precisamente isso: é convocar a memória viva de alguém que tem deixado uma marca profunda na comunidade de Paços de Ferreira e que, estou certo, o tempo não apagará.

 

Há homens que passam discretamente, e há outros que deixam rasto. Álvaro Neto pertence claramente ao segundo grupo. Sempre teve essa inquietação que não se apaga com a idade. De uma energia quase juvenil que o levou a intervir, a questionar, a lutar. Não foi apenas o advogado de voz firme nem o político combativo. Foi, acima de tudo, um homem de causas. Nunca escolheu o caminho mais fácil quando estava em jogo aquilo em que acreditava. Quem o ouviu no tribunal ou leu as suas posições na imprensa local sabe que nunca se escondeu atrás do silêncio confortável.


 

A sua longa trajetória profissional e cívica confunde-se com capítulos decisivos da história recente de Paços de Ferreira. Nos anos que se seguiram ao 25 de Abril, quando a democracia ainda dava os primeiros e incertos passos, colocou o seu saber jurídico ao serviço dos mais frágeis, trabalhadores, gente humilde, quantos precisavam de voz num tempo em que a justiça social era mais um ideal do que uma realidade consolidada. 

 

Mas o seu instinto de serviço público não se esgotou nos tribunais. No desporto, foi pioneiro e visionário. Defendeu, com a paixão que lhe conhecemos, a criação de oportunidades para os jovens através da prática desportiva, num tempo em que nem sempre havia abertura para novas modalidades. As políticas  públicas do desporto da responsabilidade municipal foram, em larga medida, desenhadas pela mão do Dr. Álvaro Neto.

 

Quem conhece Álvaro Neto sabe que é assim: frontal, por vezes incómodo, raramente indiferente. Assume posições claras, mesmo quando isso significa ficar em minoria. Mas há nele uma dimensão humana que importa sublinhar, porque é ela que redime a dureza aparente do lutador: a lealdade. Ao longo de uma vida, construiu relações sólidas, tecidas no respeito mútuo e na amizade sem prazo. Quando um amigo de longa data enfrentou a tempestade pública, não hesitou um segundo: defendeu-o com a voz embargada e a lágrima no canto do olho, recordando as batalhas comuns por uma sociedade mais digna. Nesse instante, tantas vezes repetidos na sua vida, desvendou-se o homem por trás do causídico: alguém que sente fundo, que se envolve por inteiro e que jamais abandona os seus. Eis o paradoxo fascinante: o mesmo homem que não procura consensos fáceis é também um construtor incansável de pontes, daquelas que geram verdadeiro capital social e tecem o tecido mais fino da comunidade.

 

 

O reconhecimento chegou, e soube bem por ter sido em vida. Quando a Ordem dos Advogados o homenageou no espaço solene do Tribunal, não se celebravam apenas quatro décadas de dedicação à Justiça, celebrava-se o homem completo. Mas a verdadeira medida do seu legado escapa às distinções formais. Mede-se no orgulho dos três filhos, que podem olhar para o pai e reconhecer nele um exemplo de retidão e de paixão pela vida pública. Mede-se na memória de todos quantos com ele aprenderam o ofício da advocacia ou o amor à terra. Mede-se, finalmente, na capacidade que esta comunidade tem de se honrar - mesmo quando discorda - por ter gerado uma figura de tão vincada personalidade. Em boa hora a Câmara Municipal soube reconhecer estes méritos, entregando-lhe a medalha de Honra, grau ouro. 

 

Paços de Ferreira fez-se também com gente assim: determinada, imperfeita, apaixonada, mas sempre fiel às suas convicções. Álvaro Neto é uma dessas figuras que ajudam a explicar quem fomos e quem somos. Não uma personagem distante, dessas que povoam os discursos oficiais, mas um homem inteiro, com virtudes e combates, com acessos de cólera e rasgos de ternura, com um amor evidente pela sua terra que nunca precisou de ser declamado - porque se viu, sempre, em cada causa abraçada, em cada palavra dita, vem cada luta que valeu a pena.

 

Obrigado por tanto, Dr. Alvaro Neto.

 

 

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