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Gazeta Paços de Ferreira

05/04/2026, 0:00 h

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Humanidade à deriva: Francesca Albanese

Opinião

OPINIÃO

Não é de hoje esta sensação, não é possível precisar quando, mas o mundo, tal como o lia e compreendia, deixou de fazer sentido. E não falo apenas de mudanças geopolíticas ou de ciclos históricos previsíveis, mas de algo mais profundo: uma inversão dos valores. A mentira ganhou estatuto de narrativa oficial, e a impunidade, antes camuflada, apresenta-se agora como norma.

Por Aníbal C. Pires

 

Um dos casos mais brutais desta deriva é o projeto colonial do estado sionista na Palestina, sustentado política, militar e moralmente pelo chamado mundo ocidental, esse mesmo que se proclama guardião dos direitos humanos. Em nome desses “valores”, legitima-se o genocídio do povo palestiniano, enquanto se tenta silenciar quem denuncia o inominável. A Relatora Especial das Nações Unidas para a Palestina, Francesca Albanese, uma das vozes mais consequentes na denúncia da barbárie sionista, é agora alvo de sanções e pedidos de afastamento por países como França e Alemanha. Não se pune o crime contra a humanidade, tenta silenciar-se a mensageira.

 

Mas este não é um caso isolado. Há décadas que Cuba vive sob um embargo ilegal, condenado repetidamente pela comunidade internacional, mas mantido, com requintes de crueldade, pelos Estados Unidos. Hoje, a asfixia chega ao ponto de se tentar impedir o envio de petróleo para a ilha. Cuba, que exporta médicos e não bombas, que pratica a solidariedade como política externa, é tratada como ameaça. Não por aquilo que faz, mas pelo exemplo que representa: o de um país pequeno que insiste em viver fora da lógica do medo e da submissão e que não abdica da sua soberania

 

A impunidade manifesta-se também no silêncio cúmplice em torno do caso Jeffrey Epstein. Perante o que é público e amplamente documentado, torna-se incompreensível que figuras centrais daquele sistema de abuso e poder continuem intocáveis. Entre democracias que se dizem exemplares, apenas a Noruega ousou prender um antigo primeiro-ministro ligado ao escândalo. O resto do mundo desvaloriza e tende a passar uma esponja sobre a “a ilha dos horrores”, talvez porque a verdade incomoda demasiados salões, sejam eles empresariais, políticos ou da cultura mainstream. É inaceitável e incompreensível que após os ficheiros serem tornados públicos, nenhuma das personalidades que deles constam esteja indiciada judicialmente.

 

 

 

 

O caso Epstein tem uma dimensão global e a humanidade deve exigir o cabal esclarecimento da rede de influências, do tráfico de seres humanos e dos abusos de cariz sexual que foram perpetrados sobre crianças e jovens. A humanidade deve exigir que os culpados sejam levados a juízo e penalizados pelas atrocidades que cometeram.

 

A normalização do absurdo é aceite sem nos questionarmos. Veja-se a Síria e o processo acelerado de lavagem de imagem de Al Julani, ontem classificado como terrorista, hoje recebido como chefe de Estado em respeitáveis chancelarias por esse mundo fora. A memória é curta, a conveniência é longa, e a ética tornou-se descartável.

 

Tudo isto aponta para um mesmo lugar: um mundo onde a força substituiu o direito, onde a narrativa venceu os factos, onde a lei se aplica apenas aos frágeis. Um mundo em que a exceção passou a ser a justiça. Talvez o mais inquietante não seja a barbárie em si, mas a forma serena, quase burocrática, com que é administrada. Como se tudo isto fosse normal. Como se tudo isto fosse aceitável. Estes são apenas alguns exemplos, mas julgo que deveriam ser suficientes para nos preocupar e nos fazer agir. 

 

Ponta Delgada, 16 de fevereiro de 2026

 

 

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