Estamos em maio de 2021. A imagem de um agente policial a salvar uma criança migrante de afogamento em águas de Ceuta contrasta o visionamento de cerca de centenas de crianças a serem trucidadas na Faixa de Gaza pelos bombardeamentos das Forças Militares do Estado de Israel.

Impressiona-me este contraste entre a solidariedade humana e a fácil brutalidade com que se mata.

Numa altura em que um pouco por todo o mundo, com particular destaque em Portugal, proliferam museus e profusa literatura a condenar as agruras a que povo judeu foi sujeito, objetivado pelo Holocausto – na verdade, um genocídio cometido pela Alemanha Nazi – com os horrores do “vil tratamento” expresso nos ghettos, nos corpos cadavéricos, nos fornos, nas deslocações e usurpações arbitrárias, no desrespeito pelos locais de culto judaico, na segregação racial e na destruição física e moral de famílias semitas inteiras, o que pensará disso tudo o (a) sobrevivente do Holocausto, quando em 2021, atos idênticos são praticados por aqueles que fazem parte da grande família a que pertence – em suma, o povo judeu?

Ultrapassa os limites deste escrito proceder a qualquer avaliação política quanto às Partes em confronto. A ajuizar pela Resolução 181 da ONU de 1947 é reconhecido direito à existência de dois Estados – de Israel e da Palestina. Decorridos mais de 70 anos esta realidade está ainda por cumprir. Porque?

Mas vamos aos factos determinantes deste último conflito: Está comprovado que o cerne da conflitualidade assenta na política de colonatos do Estado de Israel. Tal consiste na usurpação de terrenos palestinos e consequente expulsão dos seus habitantes. Trata-se, não de ocupação   de “terra de ninguém” ou de terra pertença de Israel, mas de território que nos termos da Resolução mencionada faz parte de Estado de Palestina. Esta apropriação de território é apresentada pelo Estado de Israel como um gesto de legitimidade civil de apropriação, com a inversão dos termos, transformando-se o ente esbulhado (palestinianos – Hamas ou Al Fatah, não importa) em esbulhador e o agressor (Israel) em agredido. É essa viciação de dados que alimenta os conflitos que se sucedem no tempo, nisto se esgotando a ideia de “legítima defesa” do Estado de Israel que tanto parece impressionar a Presidência dos EUA  – 1º Trump, agora Biden.

A causa próxima deste último conflito, assentou precisamente no controle do acesso à Mesquita de Al-Agsa, situada na parte palestiniana de Jerusalém – a Palestina Oriental (mas ocupada por Israel), já que a Ocidental é judaica. E….se de unificação se falar, então Jerusalém – cidade de culto conjunto de cristianismo, judaísmo, islamismo – mais não é senão uma cidade internacional tal como foi previsto pelas ONU em 1947 e confirmado pela Resolução nº 478 do CS/Nações Unidas de 20 de Agosto de 1980.

“Holocausto nunca mais”, não pode, porém, ser um slogan meramente nominal ou de ocasião. A história só vale pelo ensinamento que a mesma nos proporciona para dela se tirar o ensinamento para o futuro, rumo à uma convivência de paz e felicidade entre os homens. O ensinamento há – de porém valer “erga omnes”. Por isso, a verdadeira homenagem a tudo quanto o Holocausto representa exige que a sua metodologia seja perenemente repudiada por todos nós. O paradoxo da história reside, porém, na circunstância dessa metodologia estar a ser seguida pelo Estado de Israel aviltando o povo palestiniano.

O que pensará disso tudo, um(a) sobrevivente do Holocausto?

LX – 25.05.2021,    António Bernardo Colaço   (juiz-Conselheiro do STJ – Jubilado)

ASSINE E DIVULGUE GAZETA DE PAÇOS DE FERREIRA

ASSINATURA ANUAL DA EDIÇÃO ELECTRÓNICA – 10 EUROS

ASSINATURA ANUAL DA EDIÇÃO IMPRESSA (COM ACESSO GRATUITO À EDIÇÃO ELECTÓNICA) 20 EUROS