Certo ano, na Terra-de-Antigamente-É-Que-Era-Bom, a população entendeu fazer um presépio vivo por alturas do Natal e, como eram necessários certos recursos, os Mais-Bem-Falantes do grupo foram a casa do senhor Manda-Chuva para obter não só a autorização devida, como também os apoios necessários para avançar.

Evidentemente, sabendo como as coisas funcionavam, no mesmo instante anunciaram-lhe a intenção de colocar o seu filho mais novo como Menino Jesus do presépio, o que ajudou bastante à aprovação do projeto.

Depois foi só decidir a quem endereçar os convites para encarnar cada uma das personagens. Quanto aos animais, construindo-se o presépio numa corte de gado, já lá tinham a vaca e o bezerro, faltando apenas o burro, e este, para evitar o conflito de espécies, seria gente a fingir de animal.

Na distribuição de tarefas, responsabilizou-se as mulheres pela decoração do espaço e pelas vestes dos figurantes e os homens pelos ensaios. E quanto aos convites para representar cada personagem?

O Menino Jesus estava decidido; dos outros tirar-se-ia à sorte.

Faltava o burro, e esse papel não agradaria a nenhuma família decente. Todavia, alguém, num piscar de olhos, encontrou a solução: o Filho-da-Mãe-Solteira. Tão pobres eram aqueles desgraçados que considerariam uma grande honra a simples existência do convite para participar.

O problema é que, inesperadamente, o Filho-da-Mãe-Solteira recusou o papel, com o argumento de que eram pobres, mas burros não. Ele próprio iria construir um presépio na frente do barraco de colmo onde habitava com a mãe.

Dias depois, o menino pobre calcorreou os montes da aldeia à procura dos materiais que lhe convinham para o próprio presépio.

Acabou por descobrir dois pequenos troncos de madeira que simulavam um homem e uma mulher; três pedrinhas cuja extremidade terminava numa espécie de cabeça com coroa; um pequeno tronco facilmente moldável.

Neste último, servindo-se duma navalha que sempre trazia no bolso das calças, escavou um pouco e surgiu uma figura que, mesmo sem grande imaginação, faria lembrar um menino pobre: seria o Menino Jesus. Pegou nestes materiais a que juntou o musgo recolhido das rochas voltadas a Norte, assim como algumas pequenas peças que passariam facilmente por vacas, burros e cordeiros, e colocou-os no fundo dum saco de sarapilheira para os transportar.

E quando na gélida noite da Véspera de Natal as pessoas que regressavam do Presépio Vivo se depararam com um presépio tão original, abriram as bocas de espanto. As peças bem escolhidas e harmoniosamente dispostas sobre o musgo lembravam mesmo o Presépio Original.

FELIZ NATAL (com ou sem presépio) meus amigos, e que nada vos falte!

Joaquim António Leal

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