Regressado do serviço militar em 1968, a curiosidade pelo fenómeno religioso (e católico) tinha tomado conta de mim no sentido de o perceber. Passei a frequentar igrejas para assistir a missas, não com o espírito de crente, que não tinha nem pretendia adquirir, mas com a curiosidade de entender o que ali se passava. Obriguei-me a ler a Bíblia, o Corão, textos Budistas e outros livros sobre o tema. 

A Bíblia, à medida em que progredia na sua leitura, revelou-se-me um livro sem interesse ou, pelo menos, sem aquele interesse desmedido que os religiosos lhe conferem. Os textos arqueológicos e mitológicos que a compõe, montados em forma de puzzle, agregando realidades históricas e ficções, com alguns conselhos e leis à medida da época e da realidade social do lugar onde foram escritos com o único interesse de contarem a história (fantasiada) de um povo: o Judeu. 

Mas são, também, uma insustentável colecção de absurdos à volta de uma divindade sem lógica e de existência real impossível. Se eu tivesse sofrido uma meninice de educação religiosa, nunca me interessaria por estas leituras do mesmo modo, no sentido racional do verbo “interessar”, ao contrário do que penso acontecer a muita gente para quem a crença em Deus é entendida como uma necessidade psicológica. Aceito essa necessidade para quem se submeta a ela… mas não é uma necessidade biológica e vital, como é comer e beber, nem uma necessidade intelectual como é ler, viajar, ver ou fazer teatro, pintar, escrever e compor música. Poderá ser mais uma necessidade aparentada ao consumo de droga!… Já fumei e sei o que me custou largar o vício do tabaco. Mas deixei-o e sinto-me muito bem por isso… se o não tivesse feito quando o fiz, há 50 anos, provavelmente já não vivia. 

Como dizia, regressado da Guerra Colonial, não só me estreei na prática de ouvir missas. Também passei a frequentar bibliotecas e livrarias. Li filósofos e ensaístas, de entre os quais destaco os clássicos Feuerbach, Shopenhauer, Hobbes, Kant, Espinosa, Nietzsche… mas também o Catecismo Católico, Santo Agostinho, David Hume, Pascal, Pierre Teilhard de Chardin… e mais Sartre, Roland Barthes, Bertrand Russell… e o Português Tomás da Fonseca, entre outros autores. Estas leituras foram feitas sem pressa, num período de cerca de 20 anos (durante o qual prestei especial atenção a artigos de opinião e notícias de jornal, mais a programas de televisão e rádio que abordavam Religião, e conversei com religiosos de várias crenças) sempre com sentido crítico e antropológico, numa atitude de aprender os vários comportamentos humanos perante o fenómeno religioso, e nunca animado de espírito guerreiro ao serviço do “anti-Cristo”. 

Também não tinha o interesse de “saber tudo e depressa”; apenas me movia a curiosidade que alimentava a minha vontade de ler sobre Religião, não me preocupando em “procurar Deus”, o que é matéria de que não necessito absolutamente. Nem, tão pouco – como se vê pelo tempo dilatado de duas décadas – me interessava tirar um curso apressado de Religião, ao estilo da carteira de cursos do célebre “doutor” Miguel Relvas. Foi com base em todas estas experiências, leituras e raciocínios, que aos 40 anos de idade me assumi ateu. Até aí apenas sabia que a fé religiosa me causava cócegas no cérebro, levando-me a imaginar que, provavelmente, seria ateu… depois tive a certeza de que o era, e só então o assumi com a convicção de, histórica e filosóficamente, estar bem fundamentado. (FIM)

NOTA: Saúdo o Padre José Augusto pela sua chegada à Gazeta, cujas páginas careciam, há demasiado tempo, da opinião de um sacerdote. Desejo-lhe longa vida sacerdotal e larga permanência no nosso jornal (rima e é verdade!). Aceite o meu abraço.

(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico)

Onofre Varela

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