No dia 15 do último mês de Março assinalaram-se os 60 anos do início da luta de Guerrilha Angolana contra a Colonização Portuguesa. Quatro anos depois (em 1965) cheguei ao norte de Angola – integrado num Batalhão de Artilharia – à mesma região onde tiveram lugar os primeiros massacres de colonos (Dembos – vila do Úcua). 

Nem duas semanas eram passadas, tivemos um ataque ao aquartelamento que durou a noite inteira e nos causou a primeira baixa: morreu o Quim… o soldado cozinheiro Joaquim Pires Moreira, natural de Ermesinde e meu colega de camarata no navio Vera Cruz. Por isso conhecia toda a sua vida e os seus projectos. O Quim era trolha na vida civil, a sua namorada ficara grávida e era tecedeira da Fábrica Têxtil da Areosa (indústria de Manuel Pinto de Azevedo Júnior, também proprietário e director do jornal O Primeiro de Janeiro, e que mais tarde foi meu “patrão”). 

O Quim já tinha projectado toda a sua vida: aproveitaria o facto de ser cozinheiro na tropa para abandonar a talocha e a colher de trolha, tomar conta de uma adega e confeccionar comida. A sua mulher deixaria a fábrica e serviria às mesas; o seu filho já contaria dois ou três anos e teria o seu futuro traçado na continuação do restaurante do pai… mas o Quim foi o primeiro a morrer… depois morreram mais 13!… 

A pedido do médico ajudei na autópsia, o que não foi experiência fácil e ainda hoje me ocupa boa parte das más recordações de guerra. A convivência com a morte, sempre presente em pensamento e demasiadas vezes tornada realidade, levava os meus camaradas a fazerem preces para que Deus os livrasse da morte… o que me intrigava!… Em conversas de caserna apercebi-me de que era eu o único soldado que não acreditava em Deus! Intrigavam-me as suas preces e não as percebia. 

O que eu sabia, de saber certo, matemático, científico e infalível, era que se uma bala viesse na minha direcção, não havia mão de Deus que evitasse o impacto do projéctil no meu corpo, por muitas rezas que eu fizesse… e só escaparia com vida se a bala não atingisse orgãos vitais e se fosse socorrido a tempo. Parecia-me impossível haver quem acreditasse no contrário desta realidade fatal, e esperasse que a deidade interferisse na trajectória da bala!… E não tinha ninguém com quem pudesse conferir os meus pontos de vista contra-a-corrente, porque não havia por ali quem pensasse de igual modo!… 

Na tentativa de perceber o sentido da religiosidade, comecei por interrogar os meus camaradas sobre a razão da fé que tinham, iniciando aí a minha colecção de conceitos religiosos, com espírito de aprendiz de Antropologia por conta própria. Não negava as suas convicções… apenas os provocava movido pelo propósito único de os ouvir. Depois procurava perceber o porquê das suas convicções de fé. Quando eu era agressivo colhia mais informações por serem debitadas pela força da ira. Da resposta assim conseguida, deitava fora o insulto e aproveitava o resto. 

Recordo um camarada (o Tino, foto-cine) que me disse ser adventista e que assistia às missas católicas por ser o local onde se encontrava com Deus!… Considerei aquela confissão muito interessante e lógica, mas os outros camaradas, católicos, não tinham a mesma opinião e entendiam que ele devia afastar-se do culto que não era o seu. Esta atitude escandalizava-me pela falta de fraternidade e acolhimento que eu via constituir o espírito daqueles meus camaradas católicos!… (Continua)

(O autor não obedece ao último Acordo Ortográfico) 

Onofre Varela

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