É a guerra.

As balas chegam silenciosas e fazem soltarem-se gritos de gargantas ansiosas e prestes a sucumbir. Há nos rostos esgares de espanto e nas bocas perguntas que não alcançam respostas. Anda tudo de cabeça perdida, baratas tontas às voltas, com destino incerto.

É a guerra.

Acusa-se que alguém ordenou o ataque mortífero sem prévio aviso, sem dar tempo para se preparar uma defesa conveniente, se arranjar um abrigo para os civis. É o mais alto desprezo pelos códigos bélicos. Não se avistam invasores, não se ouve o troar de canhões ao perto ou ao longe, todavia, apesar do silêncio, as vítimas vão tombando, aos milhares, espantadas do que lhes sucede, cadáveres sobre cadáveres, num terrífico espetáculo de se ver. Não há sangue à vista, perfurações de projeteis na pele. Talvez o atacante deseje matar, preservando os invólucros da vida; talvez não deseje ser identificado; talvez; talvez…

Os filhos velhos guardam os pais velhos em depósitos de gente velha que se construíram para esse efeito. Lá ficarão seguros, protegidos pela vigília constante dos cuidadores contratados. Encerram-se as portas para que nenhum inimigo ouse afrontar o sossego de quem já batalhou uma vida. Entram e saem fornecedores e cerram-se as portas; entram e saem funcionários e as portas cerram-se atrás de si. Está tudo previsto para que nada falte nem surjam surpresas funestas. Mas há um velho que solta um grito, sentindo que se lhe consomem as entranhas; e há outros, e outros, e outros… São vítimas desta guerra imprecisa.

Na rua, correndo para os empregos, as pessoas empilham-se em veículos armados de vaporizadores de álcool e pouco mais.  Não haverá perigo, garantem-lhes os funcionários das mais altas esferas estatais, para evitar manifestações de desagrado. E os necessitados de trabalho e de salário no final do mês desconfiam, e colocam coletes à prova de bala nos rostos, e seguem amedrontados, de manhã bem cedo, rezando por divina proteção.

À porta dos hospitais estabelece-se uma barreira de soldados armados a impedir mais entradas. Quem já entrou pode salvar-se, quem vem tarde terá de aguentar. É o salvem-se os primeiros, os que ainda conseguiram um lugar, um canto e um pouco de oxigénio para respirar.

Será guerra? Guerrilha? Ataque terrorista? Por mais que se procure nada se enxerga, contudo, o inimigo anda por aí, atento, pronto a abater quem lhe surgir ao alcance dum simples espirro. Convém não arriscar.

Joaquim António Leal

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