A bem dizer, o desconfinamento é uma enorme maçada, porque me vai retirar da boca todos os argumentos/ lamentos que já tinha tão bem estudados, testados e comprovados na vida real caseira, obrigando-me a novos esforços criativos para me encaixar na novíssima situação. Até hoje, aos domingos, podia bem ficar a espreguiçar-me de pijama no sofá da sala o dia inteiro, assistindo a vários jogos de futebol, que a mulher não me importunava nem reclamava a posse do telecomando da televisão. Em vez de me azucrinar os ouvidos, como noutros tempos, ela dizia às amigas, convictamente: “coitadinho! Está sempre enfiado em casa, cheiinho de vontade de sair, de me levar a dar um passeio à beira mar como quando namorávamos, e tem de ficar confinado a quatro modestas paredes. É uma dor de alma vê-lo neste estado!

Não desfazendo, pois me convinha, eu adicionava uma mais-valia à minha inconsolável condição, mostrando cara de enterro: que quem me dera ir às compras ao supermercado, escolher uns ingredientes interessantes e preparar-lhe um cozinhado à maneira, como ela merece. Mas, assim, sem liberdade de movimentos, a vontade e a criatividade fugiam para muito longe, deixavam-me sem ideias, sem matéria prima, sem ação. Que quando isto melhorasse, ela ia ver como a trataria.

E, perante a minha tão dilatada desolação, ela servia-me as sandes de presunto e as cervejas frescas sem a mínima crítica à minha mal camuflada ociosidade.

E agora, como vai ser? Como vou descalçar esta bota a que tão bem se habituou o meu pé? Estava tudo tão bem assim!

Fácil é adivinhar o que se seguirá: “Amor, preciso de ir ao shopping comprar roupas e calçado. Durante o confinamento, tudo deixou de me servir. Vem comigo! Há imenso tempo que não saímos os dois. Assim, sais, arejas um pouco as ideias, renovas a mente”. E eu não vou poder dizer-lhe que detesto entrar em lojas de roupas, de me colocar de plantão à entrada dos provadores enquanto ela troca e destroca as vestimentas; que prefiro ficar no sofá da sala a ver jogos de futebol. Quanta trabalheira vou ter para reinventar as desculpas antigas, para as adaptar à nova situação!

Maldito desconfinamento!

Joaquim António Leal

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