O Português é uma língua malvada, senão vejam lá: ainda só escrevi o título e já suo imensas dúvidas: deverei escrever há, hà, á, à? Talvez na feira possa comprar a certeza que tanto anseio.

Entrando por um dos lados, deparo-me com grandes plásticos estendidos, exibindo roupas variadas, cujos preços se anunciam assim: «ó freguesa, compre que é barato! É tudo a cinco euros. É só escolher». Não é o que procuro, por isso avanço.

Passo por vendedores de guarda-chuvas, de plantas, de adubos para fertilizar o quintal. Tantas mercadorias para vender, mas nenhuma que me interesse. Já prestes a desistir, ouso calcorrear o recinto um pouco mais.

Avisto uma mulher por detrás duma bancada vazia a apregoar, alto e bom som: «ó freguês, venha abastecer-se, que é de graça e não ocupa espaço nas prateleiras!» Que raio vende a criatura?

Não descortino caixotes, nem roupas expostas em cordas, tão pouco produtos que desconheço. Parece que nada tem para vender. Apenas se vê algumas folhas de papel suspensas por linhas de costura, a esvoaçarem.

Numa delas afirma-se: “Para ser culto precisa de saber escrever”. Noutra, em letras miudinhas, pode-se ler: “por aqui à frases propositadamente erradas, contrárias à sabedoria, porque se a houvesse eu diria que há, não que à, porque o à pouco mais serve do que para ir à venda comprar arroz. E se coloquei algumas palavras como á e hà, mais não foi do que para lembrar que essas aberrações verdadeiramente não existem, logo, destinam-se ao esquecimento”.

Fico confuso, e para organizar o pensamento tento sintetizar: no “a” com “h” o acento é sempre agudo (há) e o “a” isolado só admite o acento grave (à).

Mas como distinguir entre há e à, se ambas as palavras têm o mesmo som? – Tome nota! – alerta a senhora da barraca – uma é verbo (há), o que nos remete para um tempo passado ou para algo que existe no presente, enquanto o outro (à) se liga a um lugar, a uma pessoa ou uma situação.

Por exemplo, escrevo que “há muito tempo não te vejo” e que “há demasiada gente no areal”, mas diversamente escrevo quando digo que “vou à frutaria”, que “estou à espera que a crise passe” e que “me apetece mandá-los às ortigas”. E, considerando as regras atuais para o distanciamento social, posso ainda dizer que “hoje não vou à praia porque há demasiada gente no areal”».

Não sabiam e já sabem como grafar corretamente o título deste texto? Então, acabam de fazer um bom investimento do vosso tempo.

Joaquim António Leal

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