Eu posso ver a dor a brilhar nos teus olhos, a desesperar por uma luz, ainda que ténue, a surgir em meio à escuridão que habita a tua alma. Esperanças vãs cravejadas no teu peito. O que sempre pareceu tão certo, hoje somente existe para te magoar.

Eu posso sentir os espinhos do teu lado, das sublimes rosas vermelhas que ele te deu e com as quais adornaste o teu quarto. Hoje já murchas como o amor que ele jurou que seria para sempre. Agora entendes que as aparências podem iludir?

Eu posso ver o sangue a brotar dos teus pés. Quão amargo é caminhar sobre os vidros quebrados dos espelhos que um dia te disseram que «és uma mulher linda»? Quão amargo é viver nesta luta desenfreada contra os teus próprios demónios, seguindo em direção a uma rua sem saída?

As tuas articulações estão magoadas por mais uma batalha perdida, mas dentro do teu peito tu sabes, que perder uma batalha nunca foi nem será perder a guerra.

Eu sei como dói a sensação de que o mundo está contra nós, quando aqueles que acreditamos que nos darão as suas mãos nos voltam as suas costas. Nos soltam, nos deixam ir. Vêem-nos cair sem servirem de pouso ou mão que se estende durante o flagelo.

Quando sentes o céu em pleno declive, não consegues mover-te, não podes respirar e não tens como escapar. Embora tu estejas aqui, sentes-te vazia e continuas a percorrer a calçada da tua cidade, sozinha. E paras sempre na mesma janela quebrada como os pedaços do teu coração. Tu estás aqui, porém, as tuas pernas estão a ceder e não há braços que te possam segurar.

Mantém-te firme uma vez mais. Larga a tesoura. É em vão tentares amenizar essa luta interior marcando o teu corpo. É inútil. Olha para as tuas cicatrizes, cada uma delas conta uma história que todos desconhecem. Carrega-as como um troféu de todas as outras batalhas que já enfrentaste e venceste. Lembra-te que podes vencer mais esta também.

Já escutei o vento em cólera na minha porta, mas sobrevivi à tempestade, aprendi que às vezes só precisamos de um pouco de fé, e então de uma forma inexplicável as nuvens negras sobre a minha cabeça desapareceram e consegui ver o sol brilhar outra vez.

Sei que é difícil aguentar de pé quando tudo parece prestes a explodir. A sensação constante de que não haverá felicidade no mundo novamente, contudo, sabes que não há outra forma de combater as trevas senão com a luz; a luz que vive em ti.

Acredita que para toda a oração há uma resposta, e tu? Terás a tua um dia. Porque sempre, sempre; a luz rompe a noite.

Letícia Brito

Letícia Brito

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